O Iraque e as eleições nos EUA criar PDF versão para impressão
12-Out-2007
immanuel_wallerstein.jpgEm 4 de Novembro de 2008, os Estados Unidos vão eleger um novo presidente, uma nova Câmara de Representantes e um novo terço do Senado. O elefante na sala é a guerra do Iraque. Todos sabem que ele está lá. Todos sabem que será o maior factor individual a determinar o futuro das eleições. E ninguém se sente seguro a lidar com ele se quiser pensar na vitória eleitoral.

A maioria dos políticos preocupa-se em primeiro lugar com a sua própria (re)eleição, em segundo lugar com a vitória do seu partido, e só em terceiro lugar é que pensa nas questões ideológicas. Muito poucos põem os aspectos ideológicos em primeiro lugar. Os principais candidatos à nomeação presidencial e a maioria dos candidatos a deputados estão a calcular onde se situar, de forma a perder menos eleitores entre os que normalmente votariam neles, e a atrair o máximo possível de eleitores "do centro". Do ponto de vista de um analista, as decisões não são fáceis de tomar, e isto reflecte-se em todas as manobras que estão em curso.

Vamos começar com os possíveis candidatos presidenciais. Acredita-se habitualmente que a guerra do Iraque desviou votos para o candidato democrata, qualquer que seja ele. Isto parece confirmar-se pelas frequentes sondagens. Mas que conclui disto um potencial candidato? Parece que os principais candidatos republicanos estão todos a chegar à conclusão que não podem dar-se ao luxo de ser menos do que "falcões", para evitar perder os seus últimos eleitores confiáveis, a chamada base. Mas também parecem concluir que deveriam tomar alguma distância de Bush, culpando-o não por uma posição errada, mas por incompetência para implementá-la. E estão evidentemente à espera de que os principais candidatos democratas façam ou digam alguma coisa que possa ser atacada como "antipatriótica" e assim ganhar de volta eleitores do "centro". Também podem estar a contar com algum evento dramático que possa reacender os ódios populares contra o "inimigo" e assim trazer de volta republicanos desafectos e independentes ao campo republicano. Como disse o senador Chuck Hagel, ele próprio um republicano desafecto, "o Partido Republicano ganhou duas eleições devido ao medo e ao terrorismo [e] vai tentar ganhar mais uma vez."

É perfeitamente claro que os principais candidatos democratas estão a fazer mais ou menos a mesma análise. Eles querem aparecer como sendo medianamente "pombas" na guerra, para apaziguar a sua base, mas não tanto que possam ser acusados de "traiçoeiros", para não perder os independentes e os republicanos desafectos. Estão a fazer uma campanha cautelosa, sentindo que a eleição de um presidente democrata e do Congresso não estão garantidas e podem ser perdidas. Em qualquer caso, a maioria acha inútil endurecer a posição no Congresso, já que não têm votos para aprovar seja o que for. Não têm os 60 votos no Senado mesmo para obter um voto formal nas suas propostas, e sobretudo não têm os 67 votos para se sobrepor a um garantido veto presidencial. No último debate entre candidatos democratas, nenhum deles se prestou a assumir o compromisso de retirar totalmente as tropas em 2013. Claramente, este comportamento cauteloso está a irritar a sua base mais militante. Mas até agora não há sinais de que o forte sentimento antiguerra entre estes mais militantes eleitores leve a que deixem de votar no candidato democrata à Presidência.

O problema maior está nas eleições para o Congresso. Já em 2006, os estrategas democratas estavam profundamente divididos entre os que defendiam que quanto mais "moderados" fossem os democratas, mais perto estariam da vitória, e os que argumentavam exactamente o oposto, que só um candidato fortemente ideológico poderia reunir mais eleitores. Os resultados de 2006 parecem indicar que nenhum dos argumentos se demonstrou correcto em todos os distritos. Por isso, podemos esperar que o debate táctico continue.

Em eleições bipartidárias (ou até multipartidárias), a questão táctica importante não é saber se ser mais "centrista" ou ser mais "radical" obtém melhores resultados. A grande questão é saber o que se define como o "centro". Nos últimos 25 anos, nos Estados Unidos, os republicanos conseguiram empurrar a definição de "centro" mais e mais para a direita. Em 2006, a curva deslizou ligeiramente para trás. O que ainda está para se ver é se entre hoje e as eleições de 2008, o que se define como "centro" nos Estados Unidos volta mais para a esquerda. É aqui que a retórica pública desempenha um papel-chave, assim como os acontecimentos políticos "inesperados". Num certo sentido, é Cheney versus MoveOn, num braço-de-ferro retórico.

Se o MoveOn prevalecer, mesmo que por pouco, não importaria muito quão "centrista" fosse a linha levada pelo candidato presidencial democrata na campanha. Os resultados da eleição determinariam em grande medida a atitude política pós-eleitoral. Mas se Cheney prevalecesse na retórica, pode não impedir um democrata de chegar à Presidência, mas vai trazer grandes dificuldades para este presidente retirar-se rapidamente do Iraque.

Immanuel Wallerstein, 1/10/2007


 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.