Luis Leiria: O conto de fadas de Brown criar PDF versão para impressão
09-Out-2007

luis_leiria.jpgO primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, dirigiu-se à opinião pública do seu país com um conto de fadas. O Reino Unido, disse Brown, teve tanto sucesso na sua missão do Iraque que já se pode dar ao luxo de retirar mais de metade das tropas da região que controlava, Bassorá, porque esta província está pacificada e a violência caiu a pique. Brown só não conseguiu esclarecer porque ofereceu asilo político aos iraquianos que trabalharam para as tropas britânicas. Se a região está pacificada, que têm eles a temer?

São tradutores, intérpretes, e funcionários que colaboraram estreitamente com as tropas britânicas. Aqueles que trabalharam mais de 12 meses têm o direito de pedir asilo político e de se mudarem, de armas e bagagens, para o Reino Unido. Para um país que levanta em torno de si um muro quase intransponível para resistir à imigração, não é pequeno privilégio.

Mas os iraquianos colaboracionistas - chamemos-lhes assim - que não quiserem sair do Médio Oriente ou do Iraque, ainda terão direito a auxílio financeiro dos britânicos para se mudarem para outra região, ou país da região, onde ninguém saiba da sua actividade passada.

Como é que este retrato entra no grande quadro de tropas que cumpriram a sua missão? É fácil: simplesmente não entra. Não se encaixa. Porque as tropas britânicas não estão a fazer uma gloriosa retirada. Não estão a sair depois do dever cumprido. Estão a sair porque a opinião pública britânica não aguenta mais a sua permanência, com a qual, aliás, ela nunca esteve de acordo. Estão a sair antes que seja tarde demais. Estão a sair derrotadas.

É certo que nos últimos meses a violência diminuiu no Iraque. Mas as tropas britânicas nada tiveram a ver com isso. A violência diminuiu fruto das reviravoltas políticas que as forças político-militares em presença deram. As milícias do clérigo xiita Moqtada al-Sadr decretaram um cessar-fogo em troca da libertação dos seus membros que estavam presos. Depois, Moqtada fez um acordo com o seu principal rival xiita, Abdul-Aziz al-Hakim, do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque.

Os xiitas, como se sabe, dominam o Sul do país, onde estão estacionadas as tropas britânicas. Se quiserem, pouco trabalho terão para fazer desmoronar, como um castelo de cartas, as forças policiais e militares de 30 mil iraquianos que os britânicos tão afanosamente treinaram. E de caminho varrerem os 2.500 restantes soldados britânicos. Para Brown seria um pesadelo.

Talvez isso o incentive a pressionar o seu aliado George W. Bush a não atacar o Irão, farol de todos os xiitas. Porque, se isso acontecer, não vai haver fadas suficientes para salvar o escocês que governa o Reino Unido.

Luis Leiria 

 
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