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09-Out-2007
Rui BorgesO jornalista americano Seymour Hersh tem escrito uma série de artigos nos últimos meses para a revista "The New Yorker" detalhando as discussões dentro da Casa Branca sobre a preparação do ataque ao Irão. O mais recente desses artigos dá conta de algumas alterações recentes da política americana relativamente ao Irão.

Cada artigo de Seymour Hersh é um acontecimento político. Afinal de contas é o homem que em 1969 denunciou o abominável massacre de My Lai no Vietname ou que em 2004 trouxe a público as torturas praticadas pelos americanos na prisão de Abu Ghraib. Não deixa de ser estranho que o seu trabalho tenha uma projecção nula nos meios de comunicação portuguesa. Através da sua investigação sabemos que o ataque ao Irão está agora no topo das prioridades do círculo neoconservador. Um dos sintomas é a forma como tem mudado o enunciado do rumo estratégico da guerra. De conter a guerrilha e estabelecer a democracia no Iraque a guerra passou a ter como objectivo conter o Irão. De acordo com Bush e os seus acólitos o Irão é responsável pelos actos da resistência iraquiana e portanto pela morte de soldados americanos. Mesmo os planos iniciais que previam um bombardeamento massivo do país, incluindo a destruição das suas instalações nucleares, passaram a concentrar-se na necessidade de ataques cirúrgicos contra as instalações dos Guardas da Revolução.

Segundo Hersh esta mudança resulta de três constatações por parte da Casa Branca. A primeira é que a propaganda sobre a ameaça nuclear iraniana não convenceu a opinião pública americana. A segunda, que a Casa Branca passou a reconhecer (embora não o faça publicamente) que de facto o Irão está ainda a alguns anos de conseguir fabricar uma arma nuclear. A terceira é que o Irão está a emergir como o verdadeiro vencedor, em termos geopolíticos, da guerra do Iraque.

O Irão é portanto o principal obstáculo ao projecto americano de controlar as reservas petrolíferas do Golfo. O regime dos ayatollahs tem por isso que ser enfraquecido e contido. O preço de um ataque pode ser elevadíssimo, com o conflito a espalhar-se a toda a região entre o Líbano e o Paquistão. Mas o governo americano funciona agora pela lógica de uma fera encurralada. Enfraquecido pela resistência iraquiana e vendo o seu grande adversário do "eixo do mal" cada vez mais forte, só vê uma hipótese de salvação na escalada do conflito.

Os contornos da acção militar e as mentiras mais ou menos delirantes que serão inventadas para a justificar estão ainda em aberto. Mas como Seymour Hersh tem vindo a revelar nos seus artigos a preparação do ataque está em marcha e a sua execução parece cada vez mais inevitável.

Rui Borges

 
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