Menezes, Peter Pan e Capitão Gancho criar PDF versão para impressão
02-Out-2007
cecilia_honorio.jpgO PSD volta a brindar a nação com uma escolha populista e Santana Lopes encurta a hora do "andar por aí". Bem podia Pacheco Pereira, em 2004, recordar que o reformismo próprio do PSD é a antítese do populismo do PP e carimbar o populismo institucional, de então, como uma espécie de contaminação via PP. Santana Lopes e Luís Filipe Menezes meteram no bolso o Paulinho das feiras.
Longe o Congresso em que Marques Mendes se auto-legitimava na fractura interna entre social-democracia e liberalismo/conservadorismo. Próxima a euforia de António Vitorino com a vitória de um líder de oposição que vai aumentar o lastro do PS ao centro e à direita.

Certo é que, hoje, nem ideólogos nem militantes do PSD podem desculpar o desvio populista do PSD como contaminação via coligação. Não é episódio, é padrão com a vitória de Menezes. E o mais que poderão fazer é aplaudir a Madeira de Jardim como madrinha desta galeria.

O populismo, situado para além da demagogia, é, entre outras vertentes, esse apetite de se querer a superar o binómio esquerda-direita, com práticas de direita e retórica de esquerda, com essa ventríloquia da capacidade de sustentar, ao mesmo tempo, uma coisa e o seu contrário. Menezes é Peter Pan na prosápia e Capitão Gancho nas políticas: o primeiro a consolar os desempregados às portas das fábricas depois de ter feito tudo para as deslocalizar ou fechar.

Face visível da crise da democracia liberal, adubado na exploração dos medos (da globalização e dos seus custos, de refugiados e imigrantes, da crise de representação e da distância da política, da Europa a alargar, do terrorismo islâmico ou do "choque de civilizações") o populismo, que nada tem de novo em si, atingiu a apoteose com a mediatização e rejuvenesce no seio do neoliberalismo. Tal como o conhecemos nos últimos tempos, por mais que se sublinhe o seu ímpeto reactivo às estalactites dos sistemas democráticos, o populismo é mais um filho da democracia liberal do que uma "ameaça".

Viver dos medos: para além dos medos do tempo, desde a fuga de Durão Barroso que o PSD tem medo, medo de si próprio. E tem mais medo ainda com o governo PS, medo de se afogar na hegemónica gelatina socratista, alinhada na máxima telegenia e no apetite comum de gerir políticas de direita com retórica de esquerda.

Rejuvenescer: na frieza mortuária que socialmente respiramos, o populismo, produtor de "gelo quente", oferece calor ao medo do futuro, à desilusão, com os seus líderes que, como produtos mediáticos, estão mais "próximos" e, como emocionais que convém que sejam, estão mais "próximos". Mas rejuvenesce, ainda, na comunhão de um organicismo retirado das cinzas.

O povo dos populistas é um todo orgânico, um corpo mítico, não são pessoas com direitos políticos e sócias. O organicismo neoliberal fez da empresa o paradigma, o corpo, a alma (que lateja nas fábricas, nos call center, ou nas escolas, triturando as pessoas). E assim se tem mesmo liquidado parte do legado liberal: os direitos individuais. Apenas direitos políticos com o liberalismo, direitos sociais sacados à força pelas lutas sociais e pelas necessidades das democracias liberais.

O povo do Menezes está para a empresa como a manteiga para o pão. O povo sofre, Menezes lacrimeja, a empresa ganha. E por trás da retórica dos pobres, dos desempregados, dos professores injustiçados, das famílias perdidas com o futuro dos filhos, não há nenhum desvendar da fractura entre povo e elite, há as elites do PSD à paulada e Sócrates a esfregar as mãos com mais espaço no centrão.

Cecília Honório

 
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