O lado democrata do partido da guerra criar PDF versão para impressão
01-Out-2007

Jorge CostaO Senado norte-americano acaba de classificar como "organização terrorista" a Guarda Revolucionária, tropa de choque do regime iraniano, acusando-a de cooperar com a resistência no Iraque. É mais um ponto numa longa escalada verbal, mas este basta para suportar uma acção militar "anti-terrorista". Ao apoiar esta medida, Hillary Clinton, pré-candidata do Partido Democrata às presidenciais de 2008, argumentou que é necessário "começar a mostrar os dentes em toda esta conversa sobre negociar com o Irão". O episódio sublinha o completo alinhamento do Partido Democrata pela lógica da guerra.

Ainda há poucos dias, perante uma pergunta simples - "compromete-se a, se for eleito, não ter tropas no Iraque em Janeiro de 2013, no final do seu primeiro mandato?" -, nenhum dos principais pré-candidatos deu uma resposta clara: Obama afirmou que "é difícil projectar os próximos quatro anos, seria irresponsável. Não sabemos que contingências teremos lá"; Hillary concordou: "é muito difícil saber o que iremos herdar"; Edwards foi lacónico: "não posso assumir esse compromisso".

À medida que o descalabro da ocupação do Iraque se agrava, este alinhamento é cada vez mais escandaloso. De facto, desde Novembro de 2006 que o Partido Democrata tem maioria no Congresso e nem por isso o fim da ocupação parece mais perto. Quando Bush nomeou David Petraeus para comandar a actual ofensiva na região de Anbar e Bagdad, aumentando o número de tropas, requereu um orçamento suplementar. Os democratas votaram a favor. Em Março passado, o Congresso aprovou que, a partir de Setembro de 2008, as despesas previstas da ocupação se limitariam a custos de retirada... salvaguardando que Bush pode sempre propor a continuação da ocupação e o correspondente financiamento. O Partido Democrata não o esconde: Nancy Pelosi, líder democrata do Congresso, defende que "as tropas norte-americanas que ficarem no Iraque só poderão ser utilizadas para fins de protecção diplomática, operações de contra-terrorismo e treino de forças iraquianas". Ora, estes eufemismos para ocupação e guerra constituem o essencial do mandato das tropas norte-americanas desde a invasão. Admitindo que, nesta versão polida, haveria tropas excedentárias para retirar do Iraque, Pelosi defende que estas não regressem a casa, mas que sejam transferidas para o Afeganistão.

À medida que se aproximam as presidenciais de 2008, os democratas tentarão "meter no bolso" os activistas anti-guerra. Já sabem como o fazer: não faltarão pré-candidatos democratas com tintas carregadas contra o belicismo de George Bush. Já assim foi no passado, quando Howard Dean fez furor com críticas à invasão (para depois assegurar que não efectuaria qualquer corte no orçamento do Pentágono, equivalente a metade da despesa bélica do mundo), ou quando Dennis Kucinich trabalhou para segurar, com um discurso bem mais radical, os sectores que poderiam apoiar uma recandidatura independente e anti-guerra de Ralph Nader (Kucinich acabaria por apoiar John Kerry, cujas posições sobre o Iraque são bem conhecidas). Os actuais pré-candidatos democratas também exibem grandes nuances na crítica "à condução" da guerra por George Bush, como se este tivesse desvirtuado a nobreza inicial da invasão. No fim, todos aceitam a continuação da guerra e respectiva factura.

Engana-se quem esperar que a decisão da retirada seja simples decorrência de uma vitória democrata nas presidenciais. A última presidência democrata, Clinton/Gore, ordenou o bombardeamento da Jugoslávia e a punição de milhões de iraquianos com uma década de embargo mortífero, entre outros feitos. Também no Iraque, como sobre o Irão, o partido da guerra é só um - e aposta no silenciamento da maioria da população norte-americana. Mas o partido da guerra pode ser derrotado e será derrotado, como o foram todas as aventuras coloniais dos últimos dois séculos. Pelos povos que resistem e, certamente neste caso, pelos que resistem combatendo.

Jorge Costa

 
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