A guerra em outsourcing criar PDF versão para impressão
28-Set-2007
Rui BorgesAs últimas notícias do Iraque têm dado conta do escândalo e revolta provocados pelas acções dos agentes da Blackwater no país. No passado dia 16 de Setembro, agentes da Blackwater mataram 11 pessoas em Bagdad durante uma operação de evacuação de elementos do corpo diplomático americano. Para além da matança de 16 de Setembro, a Blackwater está ser investigada por mais seis incidentes em que morreram 10 pessoas e 15 ficaram feridas.
O episódio revela alguns dos contornos mais sórdidos daquilo que é a guerra na época neoliberal.

Desde o início da ocupação que a Casa Branca se vê a braços com um problema de falta de homens para garantir um mínimo de eficácia à ocupação. Daí recorrer aos serviços de empresas privadas que vão desde limpeza, ao trabalho em cantinas e à própria intervenção militar. No total são cerca de 180 mil os funcionários de empresas privadas que trabalham em prol da ocupação. A ocupação do Iraque tornou-se num dos mais lucrativos negócios da actualidade.

Não existem números fiáveis mas são cerca de 50 mil os mercenários em acção no Iraque a trabalhar para 177 empresas de segurança. Apesar de formarem o segundo maior contingente militar estrangeiro, a sua presença só se torna visível por cá quando matam ou quando morrem. Uma olhada à lista dos mercenários mortos permite ver que desde as ilhas Fiji, aos Estados Unidos e passando pelo Nepal, há uma verdadeira comunidade internacional de "cães de guerra" à solta no Iraque.

Da Blackwater sabe-se que tem um quadro de cerca de 550 funcionários, grande parte no território dos Estados Unidos. No entanto tem cerca de mil "trabalhadores" no Iraque sobretudo garantindo a segurança do corpo diplomático americano. A vasta maioria não pertence sequer aos quadros da empresa, são uma espécie de mercenários a recibos verdes.

No início da ocupação, L. Paul Bremer publicou 100 ordens que ainda hoje são a lei que de facto governa o país. Um dos principais objectivos era "libertar" o mercado iraquiano para as multinacionais americanas. No caso do mercado da segurança a ordem 17 torna qualquer mercenário ou soldado estrangeiro imune às leis iraquianas. Daí que os mercenários, livres dos entraves à circulação da sua mercadoria, espalhem o terror com evidente excesso de zelo.

O governo Iraquiano protestou e chegou a anunciar a suspensão das licenças de operação da Blackwater. Mas à medida que os dias passam o protesto vai descendo de tom e a empresa volta ao "business as usual" O governo americano está a fazer uma investigação que muito provavelmente vai dar em nada. A Blackwater pertence à família Price, membros activos do partido Republicano para o qual têm contribuído com centenas de milhares de dólares na última década. Mas as ligações à Casa Branca não ficam por aqui. J. Cofer Black o antigo chefe do anti-terrorismo da CIA e do Departamento de Estado, e Joseph E. Schmitz ex-inspector geral do Pentágono pertencem aos quadros dirigentes da empresa.

Talvez por isso nunca um mercenário da Blackwater tenha sido castigado pelos seus crimes e a empresa continue a conseguir contratos milionários para actuar no Iraque e no Afeganistão.

Rui Borges

 
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