Atira o corpo para a luta - a propósito de André Gorz criar PDF versão para impressão
28-Set-2007

João Teixeira LopesAndré Gorz suicidou-se, no passado dia 24, juntamente com sua mulher, Dorine. Tinha 84 anos e exerceu uma influência determinante na formação das novas esquerdas e no afinamento das críticas ao capitalismo. Marxista heterodoxo, militante com grande presença no espaço público e na imprensa francesa e internacional, cedo ousou sínteses consideradas heréticas por muitos. A sua defesa da superação do capitalismo não esquecia as questões éticas e morais e sempre vislumbrou a crítica dos sistemas sociais a partir da experiência do vivido e do quotidiano - daí o seu interesse pela fenomenologia e pelo existencialismo de Sartre.

Não será forçado, assim o creio, encontrar em Gorz algumas das preocupações actuais dos chamados novos movimentos sociais, em muitos dos quais activamente participou, nomeadamente no que se refere à articulação entre o alcançar de objectivos globais e colectivos e o pugnar pela satisfação pessoal na luta e na afirmação da subjectividade intrínseca de cada um dos sujeitos envolvidos no combate, sem o esmagar na massa tantas vezes cruel e alienante das grandes estruturas.

A alienação e a libertação; as metamorfoses da classe operária e o «fim» do seu modelo industrial e fordista, com grandes implicações na luta de classes; a autonomia e a «auto-produção» do indivíduo; o seu fulgor libertário e anti-institucional (a defesa da convivialidade emancipadora e a adesão às teses da desescolarização de Ivan Illich); a luta contra o nuclear e a acérrima denúncia da hegemonia, tanto à direita como à esquerda, do paradigma produtivista e do seu fascínio pela tecnologia; a proposta de uma ecologia radical e a defesa da generalização de um rendimento social, independente do trabalho e da posição ocupada na estrutura produtiva, constituem momentos afinal interligados, combates maiores, simultaneamente teóricos e práticos, de toda uma vida.

Contraditório e turbulento, ansiando por rupturas sucessivas nas correntes e movimentos de que foi fazendo parte, André Gorz foi o exemplo de um corpo em movimento. Alguns falam de uma desistência final. Prefiro pensar na frase de Pier Paolo Pasolini: «Atira o teu corpo para a luta». Até ao fim.

João Teixeira Lopes

 
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