O ataque ao Irão está na agenda? criar PDF versão para impressão
25-Set-2007
immanuel_wallerstein.jpgO Irão está de novo a dominar o noticiário. Quase todos os dias, ouvimos denúncias de porta-vozes do governo dos Estados Unidos sobre as más acções do Irão, com uma clara insinuação nas entrelinhas de que a opção militar está próxima. Lemos sobre a crescente prontidão das forças aérea e naval americanas para um ataque. A blogosfera está repleta de mensagens a protestar contra este ataque. Será que está prestes a acontecer? E seria "racional"?

A racionalidade depende dos objectivos de cada um. Por isso, vamos analisar primeiro quais podem ser os objectivos dos que parecem estar a propor o ataque, assim como dos que, no poder, estão contra a ideia. E depois vamos olhar para as prováveis consequências de um ataque, se ele acontecesse. Parece haver dois grupos principais de proponentes de um ataque - o vice-presidente Cheney e amigos; o actual governo de Israel e amigos.

Os israelitas não fizeram segredo do facto de que há muito tempo acreditam que o Irão está a agir rapidamente para obter armamentos nucleares, e que isso representa um enorme perigo para o Estado de Israel. Querem que alguém bombardeie as instalações iranianas. Preferiam que fossem os Estados Unidos a fazê-lo, em vez de eles mesmos, tanto porque os Estados Unidos têm maior poderio aéreo à disposição, quanto porque um ataque americano faria menos estragos políticos em Israel. Mas ameaçaram fazê-lo eles mesmos, se os Estados Unidos não atacarem em breve. Do ponto de vista israelita, seria uma repetição do que eles consideram ter sido um bem sucedido bombardeamento da instalação de Osirak, no Iraque, em 1981. Este objectivo é tão importante para os israelitas que foi tornado público recentemente que em 2002-2003 Israel estava a insistir com os Estados Unidos para que atacasse o Irão antes do ataque ao Iraque.

Cheney tem provavelmente um objectivo diferente. Ele e os amigos podem ter menos confiança de que um ataque ao Irão seria tão bem sucedido quanto o ataque israelita de 1981. O objectivo de Cheney é menos quais seriam as consequências no Irão do que o que aconteceria nos Estados Unidos. O vice-presidente provavelmente espera que um ataque ao Irão aumente as perspectivas dos republicanos em 2009, avance a militarização interna dos estados Unidos, fortaleça a Presidência e enfraqueça mais as liberdades civis. Se este é o objectivo, então uma vantagem limitada no Irão seria, em si, irrelevante.

É claro que há forças poderosas que se opõem a um ataque como este. Dentro do governo dos Estados Unidos, a presença dos neo-conservadores está muito diminuída. Parece que a secretária de Estado Condoleeza Rice, o secretário de Defesa Robert Gates e os chefes do Estado-Maior conjunto acham todos que é uma má ideia. É provável que importantes líderes empresariais também pensem assim, e isso provavelmente significa que o Secretário do Tesouro Henry Paulson também se opõe. Os aliados dos Estados Unidos, incluindo os britânicos, também parecem opor-se à acção militar. E é óbvio que o governo iraquiano se opõe a esta ideia. Assim, trata-se de Cheney e dos israelitas versus todos os outros.

O raciocínio dos que se opõem baseia-se na análise de quais seriam as consequências de um ataque aéreo. A primeira questão é saber qual seria a sua eficiência. É claro que os iranianos retiraram a lição do ataque aéreo ao Iraque. Dispersaram as suas instalações nucleares, que parecem ser múltiplas, e colocadas muito abaixo do solo. As informações da espionagem americana sobre as instalações é provavelmente bastante limitada, e não é certo de que a aviação dos EUA possa sequer localizar todas, ou destruir todas as que conseguirem localizar. E como os Estados Unidos não podem mandar tropas terrestres, o resultado seria um flop militar. Mas não pode mandar tropas terrestres, pelo simples motivo de que não as tem.

Em segundo lugar, é provável que os iranianos se envolvessem nalgum tipo de acções políticas/militares em resposta, no Iraque ou no Afeganistão, ou em ambos, o que poderia ser bastante negativo para os Estados Unidos. No Afeganistão, os estados Unidos e o Irão têm trabalhado mais ou menos em coordenação, e os Estados Unidos não estão em posição de perder o apoio tácito do Irão.

Em terceiro lugar, é difícil prever em detalhe o impacto no Iraque. Mas certamente não vai ajudar a já enfraquecida posição política dos Estados Unidos para forçar o governo de al-Maliki a tomar uma posição sobre este assunto. Se forçados a isso, é altamente improvável que os principais partidos xiitas façam outra coisa que não seja apoiar o Irão, pelo menos tacitamente.

Em quarto lugar, a reacção das outras principais potências mundiais seria pelo menos de reserva. Talvez a Europa ocidental dissesse pouco publicamente, mas certamente não aplaudiriam um bombardeamento. E a Rússia e a China provavelmente denunciá-lo-iam. Apesar de vários regimes árabes chamados de moderados poderem temer a força do Irão, parece pouco provável que pudessem se dar ao luxo de aplaudir uma acção agressiva contra um país muçulmano. Para os que têm minorias xiitas significativas, haveria o perigo de manifestações populares, cujos governos poderiam achar difícil suprimir.

Finalmente, é provável que as presentes negociações diplomáticas entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos fossem postas de lado como consequência imediata de um bombardeamento americano ao Irão, porque este seria a confirmação dos piores temores da Coreia do Norte.

Em poucas palavras, seria o caos diplomático e um risco de desencadear maior e mais extensa violência no Médio Oriente. E se não houvesse claros benefícios militares, a vantagem para Israel poderia ser realmente muito limitada. É sem dúvida tudo isto que as pessoas estão a dizer nos debates actuais no interior do governo dos EUA. O único ponto fraco dos oponentes à acção militar dentro do governo é que tudo o que eles têm a oferecer em alternativa é a realização de mais esforços diplomáticos e talvez mais pressões económicas. Cheney está certamente a argumentar que isto também não vai funcionar. E provavelmente tem razão.

Seria então "racional" que os Estados Unidos bombardeassem o Irão? Quase certamente que não, não só do ponto de vista do presente governo dos EUA mas até do ponto de vista de Israel. Poderia ser "racional", se o principal objectivo fosse mudar a actual atmosfera política no interior dos Estados Unidos, mas a um preço muito alto.

Há muitos comentadores da esquerda mundial que estão a dizer que os Estados Unidos, no fim das contas, podem avançar com um bombardeamento, já que as reacções que mencionei antes acabariam por ser mais fracas do que tenho sugerido. E alguns dizem que acções de pessoas desesperadas (referindo-se tanto a Cheney quanto ao governo israelita) não são condicionadas pelo tipo de análise das consequências que expus aqui. Talvez! Mas, na minha opinião, a possibilidade de prevalecer uma acção "desesperada" deste tipo é bastante baixa, se não inteiramente impossível.

Immanuel Wallerstein, 15/9/2007

 
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