Open Source é tão eficiente e rápido quanto o Close Source, mas muito mais barato criar PDF versão para impressão
17-Out-2007
Damian ConwayEx-professor universitário da Monash University (Austrália), vencedor do Larry Wall Award for Pratical Utility em 1998, 1999 e 2000, doutorado em Ciências da Computação, autor dos livros «Object Oriented Perl» e «Perl Best Practices» e arquitecto do Perl 6 (uma linguagem de programação), Damian Conway veio a Portugal a convite da log e falou ao iGOV sobre a importância do Open Source na Administração Pública. E deixou alguns conselhos ao Governo português.

Entrevista de André Julião publicada originalmente no site Igov central em 28/8/2007


Como está a seguir a adopção do Open Source por parte de entidades da Administração Pública?Conhece o caso português?

Não conheço bem a situação portuguesa, mas a utilização do Open Source em todo o mundo está a aumentar a uma taxa extraordinária. As organizações, globalmente, a todos os níveis, sejam públicas ou privadas, estão agora a aperceber-se de que as vantagens do Open Source largamente ultrapassam os riscos.

Muitas vezes as pessoas perguntam quem são os autores do Open Source, qual é a sua actividade, porque a desenvolvem se não ganham dinheiro com ela, quem vão processar quando as coisas correrem mal. Estas foram algumas das questões que atrasaram o Open Source, mas o que se percebeu, mais recentemente, foi que quando se utiliza Open Source se tem mais segurança do que quando se opta por Close Source.

Isto porque muitas das grandes empresas de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) deixaram de suportar software. Se usar o Windows 95 e tiver um problema, a Microsoft já não o vai ajudar. Outras empresas, como a SAP, deixaram de suportar alguns produtos. Quando isto acontece, se as TIC de uma organização estão baseadas nestes produtos, não há nada a fazer. Não dispõem da fonte, não podem contratar alguém que resolva os problemas, têm de comprar produtos novos.

Nos círculos governamentais, o Open Source começou a ganhar muita atracção e interesse porque providencia a aparência da abertura, que é algo que queremos ver nos nossos governos.

Tomemos, como exemplo, os problemas recentes com o software eleitoral nos EUA. Ninguém soube porque o software produziu os resultados que produziu porque ninguém estava autorizado a ver o código. Para qualquer organização de tem que ter abertura, mostrar o código para verificação é uma grande vantagem.

As tendências recentes ao nível das empresas e dos governos têm a ver com o facto de as organizações começarem a aperceber-se de que não têm de gastar enormes quantias de dinheiro em software proprietário quando não estão a obter os benefícios que esperavam. Além disso, a comunidade Open Source tem trabalhado muito para melhorar a qualidade do código que produz para fazer as aplicações funcionarem, tendo em vista as pessoas.

Um grande exemplo disso é o que foi feito com a versão Ubuntu do Linux. Até surgir o Ubuntu, não havia de facto uma versão do Linux tão fácil de instalar e de utilizar como o Microsoft Windows e isso está a mudar.


O que pensa que pode ser feito para aumentar a utilização do Open Source nas entidades da Administração Pública?

O mais importante é que as pessoas o exijam. As entidades públicas de todo o tipo respondem à opinião pública, portanto, o que tem de acontecer é que o público diga que quer que estas trabalhem da melhor forma possível com o dinheiro que os contribuintes lhes entregam através dos impostos.

Muitos perguntam porque se gastam dois milhões em software, nomeadamente em determinados pacotes, quando se podem gastar 100 mil e obter o mesmo resultado. Temos de colocar questões e esperar que sejam levadas em conta por quem decide.

A comunidade Open Source, como um todo, concentrou-se largamente nos aspectos técnicos daquilo que faz, na sua principal actividade, porque gosta de código, de produzir software, mas não é muito boa no marketing. Por outro lado, os que produzem software Close Source (proprietário) são espectacularmente bons no marketing e conseguem fazer as pessoas acreditarem que têm realmente de ter o seu software. A comunidade Open Source precisa de pessoas que vão às organizações e apresentem os produtos, bem como de representantes que falem a mesma linguagem dos decisores e que lhes expliquem porque comprar software proprietário nem sempre é a melhor opção.

Muitos gestores ficam assustados quando lhes dizem que o Open Source implica que disponibilizem o seu código abertamente também. Isto é muito assustador para quem está em organizações com um capital intelectual focado especialmente no software dos seus negócios e processos. São precisas pessoas tecnicamente competentes para explicar porque isso não é uma catástrofe, e empresarialmente competentes para o dizerem numa linguagem que os gestores compreendam.


Quais seriam os principais benefícios desse aumento de utilização do Open Source, quer para as entidades públicas, quer para os cidadãos?

Os maiores benefícios, em termos dos resultados de cada organização, residem no facto de este tipo de software permitir gastar muito menos dinheiro. Isso significa que não implica em qualquer gasto na aquisição de software, apenas na contratação de técnicos e na aquisição de hardware que «corra» Open Source.

Na generalidade, qualquer organização que opte pelo software livre pode obter reduções de custo na ordem dos 40 a 80 por cento. Quando falamos de orçamentos de milhões, isso implica que estamos a poupar milhões, que podem ser redireccionados para outras partes da organização, como os serviços ou até o atendimento telefónico. Atender telefones pode não parecer grande coisa, mas, hoje em dia, sempre que se liga para uma organização, demora-se mais de 10 minutos a navegar entre menus até se conseguir falar com alguém.

Além disso, o Open Source, em muitos casos, é muito mais fiável que o Close Source. Muitos sistemas baseados em sistemas operativos de código fechado, que não apenas Windows, vão abaixo, como as ATM ou os sites bancários. Se, numa organização governamental, o sistema que suporta os cheques da segurança social, por exemplo, for abaixo por um dia, isso implica que muitas pessoas vão ser bastante prejudicadas.

O software Open Source é muito menos vulnerável a influências externas, como vírus, por exemplo. E tende a «correr» de forma mais eficiente em máquinas de baixa potência, portanto, sai mais barato também. Fiabilidade significa uma melhor experiência para os utilizadores e o baixo custo implica a redução de recursos, que podem ser alocados noutras funcionalidades que melhorem o serviço prestado aos mesmos utilizadores.


Que países estão mais avançados na utilização do Open Source?

Penso que o Brasil será o país que está mais próximo dessa situação, sobretudo porque tem uma política muito forte de Open Source, especialmente em entidades governamentais. As economias emergentes, como o Brasil, que estão a explodir mas não têm um capital de base enorme ainda e por isso não podem gastar o dinheiro que o software proprietário implica, serão pioneiras na migração para Open Source, motivada pelos Governos.

O Brasil e muitos outros países sul-americanos estão nesta situação, pelas mais variadas razões. Não são ainda economias internacionais, mas têm populações crescentes e o desejo de serem grandes players no mercado mundial, embora não tenham os recursos para adquirir todo o software de que necessitam. São grandes motivações para optar por um software um pouco diferente, mas tão eficiente quanto o proprietário.


O que aconselharia, nestes termos, ao Governo português?

Aconselharia a não tomar a decisão de migrar tudo para Open Source, mas antes que fizesse o que outros países já fizeram, ou seja, que olhasse para todas as possibilidades, que ignorasse o material publicitário que recebe, bem como os rumores e histórias que circulam nos bastidores.

Aconselharia igualmente a que não levasse em conta nenhum estudo financiado por qualquer fabricante de software proprietário, porque esses sugerem sempre que o Close Source é superior. Por outro lado, todos os estudos a que tive acesso e que não foram financiados por fabricantes de software proprietário - suportados por entidades públicas ou universidades - mostram que o Open Source tem mais vantagens.

O que o Governo português tem de fazer é olhar para o que realmente interessa, perceber porque algumas pessoas dão software a troco de nada e porque isso não significa que esse software não vale nada. Tem ainda de considerar as vantagens e conhecer as centenas de casos de estudo existentes em todo o mundo.

Se houvesse legislação que obrigasse as entidades públicas apenas a considerar, em qualquer concurso, uma alternativa de Open Source, este tipo de software ganharia muito mais concursos públicos que o de código fechado. Se se for obrigado a olhar para os dois, o Open Source vencerá a maioria das vezes, uma vez que é tão eficiente e tão rápido quanto o Close Source, só que muito mais barato. O Governo apenas tem de estabelecer que não se pode discriminar o Open Source. E isso tem de começar de dentro da própria Administração Pública.

 
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