Marxismo e Educação criar PDF versão para impressão
22-Out-2007
MarxUm caso bem evidente é o da classe trabalhadora, que nunca ou raramente aparece referida nos manuais escolares. Desta maneira, torna-se difícil a uma criança ou jovem oriundo deste meio encontrar explicações acerca das origens da classe trabalhadora, porque razão vive da forma que vive, os locais em que habita, porque não acede a determinados recursos, etc. E a escola tem de servir para compreender isso e dizer-lhe que é necessário transformar essa situação.

Texto de Jurjo Santomé, elaborado a partir de entrevista publicada em A Página da Educação
 

O meu compromisso com o Marxismo iniciou-se enquanto militante político de organizações sociais de esquerda, como a União do Povo Galego, de orientação marxista-leninista. Essa experiência levou-me a descobrir que a teoria marxista podia também ser aplicada ao meu campo profissional e à área educativa em específico, levando-me a estudar os grupos sociais situados no interior do sistema educativo com os quais já estava comprometido politicamente, procurando descobrir de que forma eles estavam integrados nas instituições educativas e em que medida o sistema contribuía para fazê-las verem-se a si mesmas como elementos deficitários.

Esta preocupação levou-me a encarar outras perspectivas de trabalho e a procurar outro tipo de análises na educação. É o que continuo a fazer até hoje e que se reflecte na minha obra, na qual abordo, entre outros temas, as causas que estão na origem do insucesso educativo destes grupos. A resposta encontra-se invariavelmente num sistema que possui muitas desigualdades no seu interior, e aquilo que habitualmente se designa igualdade de oportunidades não passa de um discurso de retórica. Tal como falamos de justiça social, temos também de falar de justiça escolar e de justiça curricular. E, nesta medida, creio que a injustiça curricular que se está a produzir é demasiado visível.

A área curricular analisada sob a perspectiva marxista tem sido, de resto, uma das vertentes que tenho privilegiado no meu trabalho, sobretudo no que se refere aos conteúdos, às formas de organização, aos materiais curriculares que se trabalham, às relações entre os diferentes actores educativo e às formas de participação - procurando descobrir se estes grupos têm ou não participação no sistema educativo, se conseguimos níveis significativos de democracia na nossa sociedade, se esses níveis de democracia estão também presentes na escola. Neste sentido, julgo que a escola atravessa uma fase muito autoritária, quase ditatorial, com as relações de carácter vertical a sobreporem-se às restantes.

Na mesma perspectiva de trabalho, tenho igualmente a preocupação de saber quais as referências aos grupos sociais presentes nos conteúdos escolares - ou se existem sequer referências, porque a maioria deles não é referido. Um caso bem evidente é o da classe trabalhadora, que nunca ou raramente aparece referida nos manuais escolares. Desta maneira, torna-se difícil a uma criança ou jovem oriundo deste meio encontrar explicações acerca das origens da classe trabalhadora, porque razão vive da forma que vive, os locais em que habita, porque não acede a determinados recursos, etc. E a escola tem de servir para compreender isso e dizer-lhe que é necessário transformar essa situação.

Este é o trabalho que procuro desenvolver quotidianamente. E, neste sentido - apesar de haver algumas parcelas da teoria marxista que é preciso desenvolver e adequar aos dias de hoje - o Marxismo mantém-se na sua essência extremamente válido. Actualmente, o motor da sociedade, e o seu poder, está mais em quem tem o conhecimento e não a propriedade dos meios de produção. Mas há um conceito básico que continua actual: em que medida continua ou não a haver exploração nesta sociedade. Essa é a razão de ser do Marxismo e de um trabalho educativo que se pode considerar libertador e humano.


Jurjo Santomé éProfessor Catedrático da Universidade de Didáctica e Organização Escolar

Universidade da Corunha.

 
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