Professores: cúmplices ou reféns? criar PDF versão para impressão
22-Out-2007
Professores: cúmplices ou reféns?Defendo a necessidade de uma afirmação pública dos professores como "comunidade profissional". No passado eles tiveram voz activa nos debates educativos e grande parte de sua formação fez-se no interior de projectos e de movimentos pedagógicos. Hoje há silêncio. Os professores estão numa atitude excessivamente defensiva. E, adaptando uma frase da escritora portuguesa Irene Lisboa, podemos dizer que os professores têm uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

Este texto é uma parte da intervenção de António Nóvoa realizada numa conferência no Rio de Janeiro.
 

Para responder à questão acima, uso um belíssimo texto de Severo de Melo, escrito há cerca de 30 anos, sobre situações de indisciplina na escola. Diz ele:

"É vulgar o regozijo de colegas pelos alunos angelicais. Os anos passam e nunca teriam problemas nas relações humanas escolares. As suas seriam o paraíso. (Os alunos ‘são uns amores!') O clima letivo seria um permanente êxtase místico. A realidade é bem mais dura e, por isso mesmo, mais aliciante. No outro extremo há os mal-humorados, desfiando cronicamente o rosário das suas amarguras pedagógicas, esse destino ingrato de ‘aturar os filhos dos outros', crianças rebeldes que os pais não sabem educar. A escola seria, nesse caso, a própria imagem do inferno. Nem uma coisa nem outra. Os alunos não são anjos nem demónios. São apenas pessoas (e já não é pouco!)."

O mesmo se pode dizer dos professores. Nem cúmplices nem reféns. Apenas pessoas. E profissionais. Dimensões que, no caso dos professores, estão irremediavelmente juntas. Só assim estaremos em condições de compreender com lucidez o seu lugar!

Todos conhecemos a utopia inscrita por Ivan Illich no imaginário pedagógico, com sua obra Sociedades sem Escolas. Hoje deparamos com o oposto, isto é, a existência de escolas sem sociedade. Estamos diante de uma ruptura do pacto histórico que permitiu a consolidação e a expansão dos sistemas educativos. Esse pacto, uma das grandes marcas civilizacionais do século 20, fundou-se numa lógica pública, de integração de todas as crianças na escola e de construção de uma cidadania nacional. A sua contestação actual deriva da nossa incapacidade para responder à multiplicidade de presenças (raciais, étnicas, culturais) que nela habitam. É preciso reconhecer que, hoje, há muitos alunos para os quais a escola não tem sentido, que são provenientes de "comunidades" que não se vêem no projecto escolar e que são indiferentes ao percurso escolar dos seus filhos. Estamos perante uma realidade nova, sem paralelo na história.

Não conseguiremos ir longe nas nossas reflexões se não compreendermos as consequências dessa ausência da sociedade. Paradoxalmente, essa ausência projecta sobre os professores um excesso de expectativas e missões. Eles são criticados pelas mais diversas (e contraditórias) razões. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade exige que resolvam todos os problemas das crianças e dos jovens. Para além do conhecimento e da cultura, espera-se que ajudem a restaurar os valores, a impor aos jovens as regras da vida social, a combater a violência, a evitar as drogas, a resolver as questões de sexualidade etc. Os professores podem muito. Mas não podem tudo.

É verdade que os professores foram co-responsáveis por esse "discurso do excesso". Com a sua conivência alimentou-se um mito que lhes concedia o papel de salvadores e redentores da humanidade. Hoje essas imagens viram-se contra eles e são usadas para responsabilizá-los pela crise da escola.

Que fazer? A minha resposta é simples: mudar de posição e mudar de perspectiva. Mudar de posição: em vez de chamar para nós a responsabilidade, colocarmo-nos num espaço de redes (culturais, familiares, sociais) que construa novos compromissos em torno da educação. É preciso responsabilizar a sociedade pela escola. Mudar de perspectiva: em vez da escola fechada, baseada num modelo arcaico, imaginar a nossa acção como elemento de um novo espaço público de educação. É tempo de pôr a "sociedade a serviço da escola" em vez da "escola a serviço da sociedade" (Albert Jacquard).

Defendo a necessidade de uma afirmação pública dos professores como "comunidade profissional". No passado eles tiveram voz activa nos debates educativos e grande parte de sua formação fez-se no interior de projectos e de movimentos pedagógicos. Hoje há silêncio. Os professores estão numa atitude excessivamente defensiva. E, adaptando uma frase da escritora portuguesa Irene Lisboa, podemos dizer que os professores têm uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

Os professores não são anjos nem demónios. São apenas pessoas (e já não é pouco!). Mas pessoas que trabalham para o crescimento e a formação de outras pessoas. O que é muito. São profissionais que não devem renunciar à palavra, porque só ela pode libertá-los de cumplicidades e aprisionamentos. É duro e difícil, mas só assim cada um pode reconciliar-se com sua profissão e dormir em paz consigo mesmo.

 
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