Tráfico de armas, drogas e mulheres: O submundo da extrema-direita criar PDF versão para impressão
27-Out-2007
Extrema-direita nas claquesUma das linhas da investigação policial é o financiamento das actividades da extrema-direita em Portugal. Embora esteja fora do processo que vai a julgamento, os indícios recolhidos neste e noutros processos permitem perceber como era financiada a infra-estrutura do grupo de Mário Machado e Vasco Leitão. O negócio da segurança privada continua a ser uma das fontes de rendimento do grupo, com elementos recrutados, por exemplo, nas claques de futebol. O grupo 1143, que fazia parte da Juventude Leonina – onde Machado e outros dos acusados iniciaram o contacto com o movimento skinhead neo-nazi – é um viveiro de militantes da Frente Nacional, e oito dos seus membros foram constituídos arguidos neste processo. Estes elementos são conhecidos em alguns ginásios onde praticam culturismo, estando o próprio Machado acusado também de vender ilegalmente anabolizantes. O grupo de seguranças trabalha em bares e discotecas na zona das Docas. Um dos mais referenciados é o bar Hawaii onde esta semana um adepto do Celtic de Glasgow foi baleado e acusou um dos seguranças do estabelecimento de ser o autor dos disparos. Em Junho passado, a acção dos seguranças foi novamente notícia pelas piores razões: um grupo de 23 pessoas com deficiência, frequentadores duma colónia de férias da Cercipóvoa, estiveram uma hora e meia a divertir-se no bar, até que um dos seguranças informou a monitora que teriam de fechar o bar, alegando “problemas técnicos”. Vendo que mais ninguém estava a ser avisado, e perante a insistência, o grupo retirou-se mas a monitora regressou minutos depois, verificando que o bar continuava aberto. Só com a presença da PSP é que conseguiu pedir o livro de reclamações para protestar contra a discriminação de que foi vítima.

O acesso facilitado a armas de fogo por parte dos neonazis foi providenciado por uma espingardaria apanhada no ano passado na operação policial que desmantelou a maior rede de tráfico de armas até hoje detectada em Portugal. Fernando Pimenta, um dos skinheads neo-nazis da “primeira geração” que nos anos 80 criou o Movimento de Acção Nacional, e conhecido no meio por Himmler, era o proprietário da loja de armas e artigos militares Soldiers, na baixa de Lisboa. Em Março deste ano, saiu a acusação e Pimenta é um dos 28 arguidos que vai parar ao banco dos réus, 16 dos quais pertencem aos quadros da PSP, incluindo o chefe do Departamento de Armas e Explosivos.

A acusação do processo das armas, segundo os relatos da imprensa, envolve importação de armas e a emissão de licença de armas de defesa para pessoas com cadastro por tráfico de droga, contrariando os pareceres da polícia, ou licenças de armas de caça grossa para quem não tinha licença de caça. Através desta rede, muitas armas de guerra terão entrado no país com “selo” de armas de caça grossa.

O único preso preventivo do processo e alegado líder da rede é Henrique Martinho, que prestava serviço na esquadra de  Benfica e era proprietário da loja “Caça e Defesa”. Mas era igualmente senhorio da loja Soldiers, onde funcionava também um clube de tiro. Os neonazis inscritos neste clube passaram a ter acesso fácil a armas de calibre pesado, que a lei só autoriza para caça ou tiro desportivo. Foi de lá que veio a shotgun que Mário Machado exibiu na RTP, comprada em nome da mulher dado o longo cadastro do líder hammerskin. A empresa-mãe da Soldiers, a EuropArmour, era detida por Pimenta e dois sócios espanhóis, um dos quais foi um destacado dirigente das Bases Autónomas, organização neo-nazi espanhola. Existem suspeitas de que estss ligações internacionais da extrema direita através do tráfico de armas se reflictam igualmente no financiamento das actividades dos neo-nazis portugueses.

Outra das fontes de financiamento deste grupo na mira dos investigadores está ligada a outro tipo de tráficos. Mário Machado foi condenado em Julho do ano passado a três anos de prisão por extorsão, sequestro e posse ilegal de arma. Em 2003, a pedido de um traficante de droga a cumprir pena em Coimbra, também arguido e condenado em tribunal, Machado dirigiu-se ao escritório dum advogado, sequestrando o advogado e as funcionárias até que lhe entregassem um cheque de nove mil euros, reclamado pelo traficante preso.

Outro dos companheiros de Machado desde os tempos da Irmandade Ariana e do Grupo 1143 é Rui Veríssimo, elemento com papel preponderante no grupo. Foi ele que arrendou a “skinhouse” no Tojalinho, em Loures, que foi durante algum tempo o ponto de encontro de neo-nazis portugueses e estrangeiros, até ser descoberta e revistada pela polícia em 2004. Ali se realizavam os concertos da banda “Ódio”, composta por skinheads e com letras que apelam à violência racial e anti-semita.

Em Janeiro do ano passado, Rui Veríssimo regressava a Portugal no vôo proveniente de Cabo Verde e a polícia apanhou-o com um quilo e meio de cocaína. O homem da logística da Frente Nacional foi preso, mas não denunciou o nome dos restantes elementos responsáveis pela posterior distribuição e venda da cocaína. Pelo menos foi o que disse em cartas escritas a outro hammerskin: José Amorim, o vocalista dos Ódio que também está no ramo da segurança e a quem Veríssimo confiou a sua arma enquanto cumpre a pena de quatro anos e meio de prisão. Tanto a arma como as cartas do traficante foram apreendidas nas buscas policiais e Amorim ficou sujeito a prisão domiciliária com pulseira electrónica.

Para além da extorsão e do tráfico de armas e droga, os neo-nazis, através de Mário Machado, não escapam às acusações, nos fóruns da extrema-direita na internet, de promoverem o tráfico de mulheres, através da sua ligação aos principais arguidos no caso Passerele, que viajavam sempre acompanhados de seguranças, inclusivamente em deslocações ao Brasil para recrutamento de mulheres para clubes de striptease em Portugal. O jornalista espanhol António Salas, autor de “Diário de um Skin” que viveu anos infiltrado no meio skinhead e agora no meio do tráfico de mulheres para prostituição na Europa, diz que há ligações da extrema-direita portuguesa aos responsáveis por grandes redes de tráfico no país vizinho, da mesma área política.

 
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