Defende-se o racismo em nome “do direito ao disparate” e quiçá da ciência criar PDF versão para impressão
27-Out-2007

Mamadou BaA OPINIÃO DE  MAMADOU BA, DO SOS RACISMO 

Os Josés Pachecos Pereiras, Josés Manuéis Fernandes, as Estheres Muczniks e todos os arautos do “politicamente incorrecto”, terão de fazer uma escolha clara: encarar o racismo, no seu sentido mais lato como uma ameaça aos valores da humanidade, como uma aberração que nenhum direito ao disparate pode levianamente banalizar e estratificar.

 

A diarreia verbal do senhor Watson nem sequer nos mereceria a pena de se perder tempo em discutir as suas atoardas pseudo científicas não fosse o coro estridente dos agora detractores do “politicamente correcto” que, de forma célere, vieram a terreiro em sua defesa. Perdão, “em defesa da liberdade de expressão”!!. Encabeçado pelo inevitável José Pacheco Pereira e pelo inefável José Manuel Fernandes, este exército de defesa do “politicamente incorrecto”, encontrou no “direito ao disparate” o último escudo para cerrar as fileiras na defesa do senhor Watson. Não, perdão, na defesa  da liberdade de expressão!

Em nome do direito ao disparate, defende-se o que de mais ignóbil e hediondo encerra a teoria racista eugenista e pseudo científica do senhor Watson. A verdade é que a invocação “do direito ao disparate” serve apenas para que esses senhores continuem a sua batalha ideológica desterrada nas catacumbas do racismo primário e ordinário imaculado de cientificidade: a superioridade da “raça branca.” José Manuel Fernandes banalizou o “direito ao disparate” como se fosse uma mera incontinência qualquer. Incontinência cerebral esta, que permite a todos os pseudo “politicamente incorrectos” de reafirmarem, além de outras barbáries a que nós têm habituados sobre a pretensa superioridade civilizacional do Ocidente em relação ao resto do mundo, o racismo mais primário e mais vil, porque subtil e cobardemente expresso. 

Porém, desenganem-se aqueles que relativizam esta nova era do tal “direito ao disparate”, porque de facto, ela consubstancia claramente uma ofensiva ideológica para reforçar a hegemonia cultural da Direita conservadora e retrógrada, procurando fazer vingar o machismo, o sexismo e o racismo. E não se podia ter encontrado melhor embaixador para tal batalha ideológica que o senhor Watson que se notabilizou pela sua homofobia, o seu sexismo e o seu entusiasmo em defender o eugenismo. O que é certo é que, o seu “génio” científico não o eximiu o de ser um inenarrável imbecil e um óptimo porta-voz do ideal WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant ou como às vezes também se diz, White, American, Southern and Protestant). Esta sigla que é a matriz do modelo ideológico da mais reaccionária direita americana constitui o pano de fundo de todas as teses racistas, sexistas e homófobas.

Não resta a menor dúvida de que “a polémica Watson” é somente um pretexto para José Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes e muitos outros cronistas – mor do neo-conservadores portugueses afirmarem alto e bom-tom o que sempre pensaram: não podem deixar de assumir a presunçosa superioridade da “civilização ocidental”.

Senão vejamos: em tese na cabeça do José Manuel Fernandes temos dois reaccionários disparatados: Watson e Ahmadinejade.

Watson esse, pode “ter o direito ao disparate” mas o Ahmadinejade não pode. E se “disparatar” tem de ser perseguido e punido pelos seus “disparates” e em nome “dos limites do inadmissível”. Esta dualidade de critérios no acesso “ao direito ao disparate” resume-se basicamente a isto: o racismo no ocidente é uma coisa diferente do racismo noutro lugar qualquer do mundo!

Ou seja, o racismo assumido por um ocidental pode configurar apenas um disparate e como ele não pode deixar de ter o direito de ser disparatado, daí não virá mal nenhum ao mundo!

Esta banalização do racismo procura falaciosamente impor a sua negação em nome da liberdade de expressão!

E para isto, vale tudo, desde aceitar-se e defender-se o neonazismo em nome do princípio da liberdade de opinião. Escandalosamente, José Pacheco Pereira vai candidamente, lembrando-nos que Mário Machado, um assassino racista e criminoso de delito comum, é um “preso político”! Disse ainda, o iluminado Pacheco Pereira que o racismo não é crime “num país verdadeiramente liberal!”

Aliás para perceber que estas posições de Pacheco Pereira constituem uma linha de combate ideológico, basta ver como, falaciosa e desonestamente ele tenta sempre pôr a extrema esquerda e a extrema direita no mesmo saco, não se coibindo, no entanto, de se arvorar em advogado desta última. Como se a questão fosse de esgrima no espectro político e não absoluta e substancialmente de valores!

O combate dos ideólogos do centrão direitoso é pôr em causa os valores socialmente consensuais, tais como o anti-racismo, o direito à diferença, a igualdade, etc. Valores esses adquiridos como sendo intocáveis e invioláveis pela maioria das sociedades contemporâneas.

A propósito de disparates, José Manuel Fernandes, disparatadamente ou não (saberá ele melhor de que ninguém) deve gostar muito da litania da senhora Esther Mucznik que mantém uma crónica no jornal Público, cuja maior parte é sim, um perfeito disparate!

Numa recente crónica sua no Público, isto a propósito da profanação do cemitério judaico de Lisboa pelos skinheads neonazis, a senhora Mucznik indignou-se com o racismo puro que representava tal acto hediondo. Mostrou-se “profundamente chocada” com o crescimento da Extrema direita que, reconhecia ela, o SOS Racismo denunciara e bem dias antes, mas a senhora Mucznik não se impediu de insinuar que houve mais silêncios do que manifestações de indignação! E que tais silêncios indiciariam leituras políticas perfeitamente localizáveis: o anti-sionismo e o anti-semitismo de extrema-esquerda teriam contaminado algumas organizações anti-racistas, como é o caso do SOS Racismo. Já agora e se nos perguntássemos nós também acerca dos silêncios da senhora Mucznik? O que pensa do “direito ao disparate”? Onde andou durante esses anos todos quando se denunciava o crescimento do racismo em Portugal como consequência do próprio crescimento da extrema direita e das políticas de imigração repressivas e xenófobas? Porque sempre se preocupou mais com o médio-oriente, o Ahmadinejade e não com o crescimento da extrema direita em Portugal? O que tem a dizer sobre a limpeza étnica dos palestinianos pelo Estado de Israel? O que tem a dizer sobre o terrorismo de Estado? Que comentários lhe merecem a verborreia racista e violenta do escritor Martin Amis?

Quem ainda nunca respondeu a nenhuma destas perguntas nada mais tem a dizer sobre os silêncios dos outros, ao não ser que se arrogue “do direito ao disparate.” 

Para quem, o Ocidente não pode estar preso aos “seus crimes” históricos para não travar a guerra das civilizações, nada mais tem a ensinar a ninguém! Para quem o colonialismo e a escravatura para ter o estatuto de crimes, só podem estar entre parêntesis, nada melhor terá a fazer senão realmente calar-se! E para quem não hesitou em pôr em causa o trabalho jornalístico de uma jornalista do Público, escrevendo “O lirismo da linguagem não consegue encobrir a parcialidade flagrante... Alexandra Lucas Coelho pode saber muita coisa, mas o que não sabe com certeza é que nunca se comparam sofrimentos. É um exercício indecente e imoral […] que seleccionar e privilegiar sofrimentos em detrimentos de outros é o principio da desumanização? Tal como cada vida humana é única e insubstituível, assim é com o sofrimento, vale por si e não é comparável…” (Público , 2-09-06)


Ora ai está a luta contra o racismo, o anti-semitismo, a extrema-direita só pode ser um compromisso real e universal em nome dos valores da humanidade, de toda a humanidade.

Os Josés Pachecos Pereiras, Josés Manuéis Fernandes, as Estheres Muczniks e todos os arautos do “politicamente incorrecto”, terão de fazer uma escolha clara: encarar o racismo, no seu sentido mais lato como uma ameaça aos valores da humanidade, como uma aberração que nenhum direito ao disparate pode levianamente banalizar e estratificar.

 
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