Turquia e Iraque criar PDF versão para impressão
23-Out-2007
Rui BorgesA tensão entre a Turquia e o Iraque está à beira de levar a região para uma perigosa escalada do conflito. A aprovação pela Câmara dos Representantes de uma resolução reconhecendo o genocídio dos arménios pelas tropas otomanas em 1915 está na origem do conflito com os sectores nacionalistas turcos a exigirem uma resposta que faça o governo americano recuar. Mas não é só a resolução aprovada em Washington que explica o que se está a passar. As raízes do problema estão na forma como o imperialismo tem dividido os povos da região ao longo dos últimos séculos. E em particular como a ocupação americana do Iraque promove essa divisão. Hoje em dia os curdos governam de forma bastante autónoma o norte do Iraque. O seu direito à autonomia é reconhecido sem grandes controvérsias e sectores da administração americana defendem a sua independência (assim como a fragmentação do Iraque em pequenos estados confessionais). Tornaram-se um dos mais preciosos aliados da Casa Branca fazendo o jogo da ocupação para conseguir uma eventual independência.

Do lado turco da fronteira, os curdos nem sequer podem falar a sua língua e são considerados terroristas. Tanto a UE como os Estados Unidos, apesar das piedosas declarações a favor dos direitos humanos, incluíram o PKK na lista de organizações terroristas dando à Turquia mão livre no seu projecto de aniquilação dos curdos. O exército turco impôs à região um regime de deslocamentos forçados de populações, prisões, tortura e assassinatos que são bem conhecidos.

A Turquia por sua vez é um dos principais aliados de Washington e membro da NATO desde 1952. A condenação do genocídio dos arménios tem como consequência um enfraquecimento da posição turca face aos curdos. Daí a reacção exaltada da sua parte e o recurso à ameaça militar. Quer para o governo turco quer para a Casa Branca o imbróglio é evidente. Se a Turquia avança para o Iraque vai envolver-se numa guerra de guerrilha que não poderá vencer, para além de entrar em conflito directo com os Estados Unidos e desestabilizar a única área do Iraque em que a ocupação pode reclamar alguns sucessos.

Mas o avanço da Turquia significará também uma escalada do nacionalismo, da repressão dos curdos e do silenciamento de todos os indivíduos e organizações que se oponham à guerra. Assim como a possibilidade de os curdos do Iraque serem lançados contra o exército turco para defender a ocupação americana. A pretensão das forças nacionalistas turcas de levar avante um ataque militar no norte do Iraque terá resultados catastróficos para os povos turco, curdo e iraquiano.

 
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