Imagina a Paz: Um raio de luz em tempos de escuridão criar PDF versão para impressão
25-Out-2007
Amy GoodmanCom importantes manifestações de oposição à guerra previstas em cidades de todos os EUA para o próximo sábado 27 de Outubro (ver www.oct27.orgo legado de John Lennon continua vivo, desde o céu iluminado da Islândia até às muito vigiadas ruas do nosso país, os Estados Unidos da América

John Lennon faria 67 anos na semana passada, se não tivesse sido assassinado em 1980, aos 40 anos de idade, por um fã perturbado mental. No seu aniversário, a 9 de Outubro, a sua viúva, a artista e activista pela paz Yoko Ono, cumpriu um sonho que ambos partilhavam. Ono inaugurou na Islândia a torre Imagine Peace (Imagina a Paz), uma coluna de luz que emerge de uma fonte dos desejos, rodeada na base pela frase "Imagine Peace" escrita em 24 línguas.

O legado de Lennon é agora mais relevante que nunca. O governo de Nixon espiou-o e tentou deportá-lo, tudo porque se opunha à guerra do Vietname. Os paralelismos com o programa de escutas telefónicas não autorizadas levado a cabo pela administração Bush, juntamente com a participação do Pentágono na espionagem a nível nacional e as prisões massivas de imigrantes são arrepiantes, e as lições que tudo isto apresenta são vitais.

Ono concebeu a torre da paz há 40 anos, no começo da sua relação com Lennon. Ela cresceu no Japão e sobreviveu ao bombardeamento de Tóquio na Segunda Guerra Mundial. Contou-me o seguinte: "Graças ao que passei durante a Segunda Guerra Mundial, tenho gravado o terrível que é viver uma guerra".

Yoko continuou: "Ocorreu-me construir uma torre luminosa, e a ideia encantou John, um farol que me surge de vez em quando. Foi na altura em que me convidou, em 1967...era a primeira vez que me convidava para ir a sua casa. Pensei que haveria uma festa ou coisa parecida, mas não, foi um dia muito tranquilo. E disse-me: ' Bom, na realidade convidei-te porque queria saber se podes construir o farol no meu jardim', ao que lhe respondi: 'Oh, querido, não, não. É apenas uma ideia conceptual. Não sei construir nada', e deu-me vontade de rir. Mas foi então, há 40 anos, quando ele quis a sua torre luminosa".

Há quarenta anos, o jovem casal foi-se envolvendo cada vez mais no movimento contra a guerra do Vietnam. O FBI, às ordens de J. Edgar Hoover, dedicou imensos recursos para atacar as pessoas críticas, que na sua maioria exerciam o seu direito à dissidência de forma perfeitamente legal. Tudo isto ficou conhecido mais tarde como COINTELPRO, o programa de contra-espionagem do FBI, que durante décadas espiou grupos e organizações dos EUA, infiltrando-se e interferindo nas suas actividades.

Lennon era um pacifista na tradição de Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr. Enquanto o movimento anti-guerra ia crescendo na sua capacidade de militância, Lennon e Ono casaram-se e usaram a lua-de-mel como um apelo público à paz. Decidiram passar uma semana na cama, no que chamaram um "Bed in for Peace" ("Na cama pela Paz"). Conscientes de que a sua acção atrairia os meios de comunicação de todo o mundo, os recém-casados asseguraram-se de que o seu apelo à paz seria ouvido e que todas as fotografias tiradas tinham de incluir a palavra "Peace" (Paz). Lançaram uma campanha de posters e cartazes publicitários, usando a frase "The War is Over-If you want it ("A guerra acabou - se tu quiseres"). Estas acções eram criativas, leves e descontraídas, mas claramente ameaçadoras para a administração Nixon.

Foram estabelecendo uma relação mais estreita com o movimento anti-guerra dos EUA e, em 1971, planearam uma grande tournée de concertos para conquistar votos que ajudassem a derrotar Nixon. Nixon e Hoover intensificaram a campanha para neutralizar Lennon.

O FBI aumentou a vigilância e o cerco a Lennon, e em seguida tratou de deportá-lo. As actividades de Lennon foram também seguidas pela CIA, como revelaram documentos secretos recentemente desclassificados. O senador ultra-conservador Strom Thurmond escreveu um memorando secreto em que advogava a deportação de Lennon, enviou-o ao procurador-geral dos EUA e deu-se início ao processo. Lennon escapou à tentativa de deportação e em 1980, com o lançamento do disco Double Fantasy, voltou a demonstrar a sua brilhante criatividade, mas foi assassinado uma semana depois.

Neste momento, sucedem-se as revelações sobre as práticas de vigilância e escutas telefónicas levadas a cabo pelo actual governo. A companhia de telecomunicações norte-americana Verizon acaba de revelar ao Congresso que forneceu ao governo registos de clientes seus por mais de 94.000 vezes desde 2005. A União pelas Liberdades Civis dos EUA (American Civil Liberties Union) descobriu a conivência entre o Pentágono e o FBI para contornar a lei a fim de obter informação financeira de cidadãos norte-americanos.

Pedi a Yoko Ono que comparasse os governos de Nixon e Bush: "Não me preocupam muito os políticos profissionais. Acredito sempre em que podemos mudar o mundo mediante os movimentos de base. Isso é que é importante fazer. Compreendi pela primeira vez que respeito tanto os Estados Unidos porque há muitas pessoas aqui que tentam fazer girar o eixo mundial para a paz".

Com importantes manifestações de oposição à guerra previstas em cidades de todos os EUA para o próximo sábado 27 de Outubro (ver www.oct27.org ), o legado de John Lennon continua vivo, desde o céu iluminado da Islândia até às muito vigiadas ruas do nosso país, os Estados Unidos da América.

Amy Goodman é a apresentadora de Democracy Now!, noticiário internacional diário emitido por mais de 500 estações de rádio e televisão nos Estados Unidos e no mundo. 

Traduzido por Jaime Pinho

 
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