O filme de Putin criar PDF versão para impressão
26-Out-2007
luis_branco.jpgCom a visita do presidente russo a Lisboa, vem também o documentário que mostra como Putin subiu ao poder e a partir daí perseguiu os opositores políticos até à morte. "Os sacanas apanharam-me, mas não nos apanham a todos", disse o ex-espião dissidente Litvinenko poucas horas antes de morrer por envenenamento num hospital de Londres. Para ver este sábado às 16h30 no festival Doclisboa.

Para além duma cimeira para cumprir calendário diplomático, a visita do presidente russo a Portugal fica marcada pelo programa cultural. Não falo da inauguração dum pólo do museu Hermitage no palácio da Ajuda, ontem inaugurado por Vladimir Putin e Cavaco Silva, que vai custar para já um milhão e meio de euros e provavelmente conhecer o mesmo destino que o pólo de Londres, cujo encerramento por dificuldades financeiras foi anunciado anteontem. O verdadeiro ponto alto da visita é este sábado às 16h30 na Culturgest, altura em que o festival Doclisboa estreia em Portugal o documentário "Rebellion: The Litvinenko case" de Andrei Nekrasov (ver entrevista).

Alexander Litvinenko foi agente do KGB e do sucessor FSB, na área do contra-terrorismo e crime organizado. Mas no fim de 1998, numa altura em que Putin dirigia o FSB, Litvinenko e outros cinco altos funcionários denunciaram publicamente as ordens que receberam dos seus superiores para assassinar algumas personalidades do mundo dos negócios e da política, entre os quais Boris Berezovsky, o magnata então secretário do Conselho de Defesa e próximo do presidente Boris Ieltsin. Em resultado da denúncia, Livtinenko foi afastado e preso várias vezes, até que conseguiu fugir do país com passaporte falso e pedir asilo político em Inglaterra, onde veio a morrer envenenado em Novembro do ano passado.

O documentário mostra entrevistas ao ex-espião russo no hospital onde passou os últimos dias de vida. "Os sacanas apanharam-me, mas não nos apanham a todos", disse Litvinenko poucas horas antes de morrer. As acusações de Livtinenko que estão na base das suspeitas que recaem sobre o Kremlin fazem-nos recuar a 1999, quando Putin era primeiro-ministro. Uma série de explosões em apartamentos de Moscovo fez mais de 300 mortos e providenciou o clima político ideal para avançar para a segunda guerra da Chechénia, cujos guerrilheiros separatistas foram imediatamente acusados por Putin de estarem por trás dos atentados. O exército e a aviação russa voltaram a bombardear os chechenos e a popularidade de Putin subiu em flecha, abrindo alas para a entrada em força dos homens do FSB no Kremlin.

As tentativas de fazer uma investigação independente aos atentados esbarraram na maioria parlamentar fiel a Putin e na recusa do governo em responder aos inquéritos. Vários membros dessas comissões foram entretanto assassinados, espancados ou presos. E a Duma chegou a votar a selagem por 75 anos dos materiais relacionados com um desses atentados. Todos os inquéritos foram arquivados.

De então para cá, falar de democracia na Rússia é um assunto evitado pelos chefes de estado e de governo e não consta que os assassínios do ex-espião Litvinenko, da jornalista Anna Politkovskaya e de outras figuras da oposição a Putin tenham sido assunto de conversa no banquete oferecido por Cavaco ontem à noite. Mas vão sê-lo amanhã, à hora do lanche, no grande auditório da Culturgest. Porque é preciso mostrar ao mundo estes filmes de Putin.

 
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