As elites securitárias criar PDF versão para impressão
29-Out-2007

João Teixeira LopesUm grupo de notáveis, a fina-flor da «sociedade portuense», endereçou um pedido ao Governo para salvar o programa camarário «Porto Feliz». Pressentem estes senhores que a vida está perigosa. Há pobres, doentes, excluídos. E eis que a doença à vista incomoda; que a cidade deve ser higienizada e purificada. Dão, pois, as mãos e os braços a Rui Rio

Um grupo de notáveis, a fina-flor da «sociedade portuense», endereçou um pedido ao Governo para salvar o programa camarário «Porto Feliz». Para os menos esclarecidos, como o senhor Saldanha Sanches que gostava de ter um Rui Rio à frente da edilidade lisboeta, o «Porto Feliz» consistia em prender arbitrariamente arrumadores da cidade, sujeitando-os a interrogatórios ilegais, a tortura, por vezes, e ao despejo ou nos municípios mais próximos, no caso dos recalcitrantes, ou no Hospital Conde de Ferreira, para os que aceitavam participar no «programa de reabilitação». Contra esta prática, demitiu-se em protesto um honrado comandante da polícia municipal do Porto. Esta, em vez de proteger pela proximidade os cidadãos do Porto, em particular os mais pobres, que são como todas as estatísticas o demonstram os mais atingidos pela insegurança e violência (também policial...), gastava 2/3 das suas ocorrências na nova obsessão do Presidente da Câmara: perseguir os arrumadores e toxicodependentes.

O «programa», também baptizado expressivamente de «não contribua (com a moeda) /erradique de vez com a exclusão» foi um verdadeiro fiasco. Passados dois anos, requeri, na Assembleia da República, uma estatística dos percursos dos indivíduos abrangidos. Apenas um era tido como efectivamente «reinserido». Pelas ruas da cidade, uma vez regressados dos municípios contíguos, os arrumadores permaneciam em grande número, num jogo com a polícia de perseguição/fuga. Soube-se, entretanto, que o «programa», a solução final de Rui Rio para a erradicação da exclusão, não cumpria nem os protocolos médicos há muito estabelecidos, nem as mais elementares regras de contabilidade. Prova maior deste falhanço reside no facto de o programa nunca ter sido sujeito, até à intervenção do IDT, a qualquer auditoria externa.

De que têm medo estes senhores (estão lá todos - tout le petit Porto...), que há décadas, na sua esmagadora maioria, em nada contribuem para a afirmação da cidade? Que temem estas elites, protegidas na parte blindada da cidade, beneficiários do crescente apartheid urbano, usufrutuários dos condomínios privados e exércitos feudais de segurança? O que move estas elites, que ganham milhões sem nada arriscar, parasitárias do Estado, que tanto abominam mas que chupam até ao último cêntimo, como vorazes sanguessugas? O que motiva as elites do capital fictício, do capitalismo vodu, do casino nacional, da especulação? Quantos deles, na verdade, a coberto das categorias de «empreendedor» ou «empresário» se comportam como patrões sem escrúpulos e sem qualificação? Bancos, hipermercados e centros comerciais, eis o seu negócio, sempre pouco dado ao risco. Há um rumor e correm para as sedes financeiras em Lisboa ou vão ao paço pedir favores. Quantos deles não despedem, não humilham, não tratam como descartáveis milhares e milhares de pessoas, algumas das quais, terminam, precisamente, nas malhas da pobreza e da toxicodependência? Leiam a lista. Estão lá todos.

Pressentem estes senhores que a vida está perigosa. Há pobres, doentes, excluídos. E eis que a doença à vista incomoda; que a cidade deve ser higienizada e purificada. Dão, pois, as mãos e os braços a Rui Rio, o autarca que move mundos e fundos para os patrocínios das corridas de carros, das exibições dos frenéticos aviões, da rua 31 de Janeiro coberta com neve artificial para a prática de sky, da maior árvore de Natal do mundo, gentilmente erguida com os fundos do generoso e honesto BCP, mas que não consegue, porque não quer, perante o fracasso total, um cêntimo para o nefasto «Porto Feliz», agora transformado em objecto de vitimização e em arma de arremesso contra Lisboa. Na hora certa, estas elites escolhem o homem certo. Ainda bem que nos avisam.

João Teixeira Lopes

 
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