Outubro 1917: na grande convulsão de 1914 a 1922 criar PDF versão para impressão
03-Nov-2007
Fileiras do exército branco em baixo. Foto de RodchenkoCom a queda do regime czarista e uma vez fracassado o parênteses democrático de Kerensky, o processo revolucionário acelera. É aí que o "poder dos sovietes" deverá confrontar-se "com o oceano camponês", como explica com fineza o historiador Moshe Lewin. Entretanto, espera-se o "aliado privilegiado": o proletariado europeu. Ou a aparição de crises revolucionárias noutros países. Neste contexto, o Estado é a única mediação que o "poder soviético" tem no seu vínculo com as massas operárias e camponesas. Aqui nasce o nó complexo das relações entre Partido-Estado-Sociedade.

Texto de Charles-André Udry(1)

 


1) Diversas correntes de historiadores dissertam sobre a Revolução Russa em divórcio total do contexto internacional e do período histórico pertinente: de 1914 a 1922. Isto dificulta a tarefa de restituição do "acontecimento", a riqueza do seu significado político e a dimensão histórica das suas implicações. Tanto a periodização, como a contextualização tornam-se indispensáveis para decifrar as especificidades dum "acontecimento" que, Jean Jaurés, não duvidou em catalogar como uma revolução que delimitou, radicalmente, "interesses inicialmente confundidos".

2) Os anos 1914-1922, englobam: 1) o desencadeamento duma guerra de um novo tipo, com as suas múltiplas consequências sobre a sociedade europeia, as suas instituições e sobre as esquerdas políticas e sindicais; 2) o eclodir do processo revolucionário na Rússia (Fevereiro-Outubro 1917); 3) a guerra civil no país dos sovietes, que de facto começa em 1919 e finaliza em 1922 com os últimos movimentos armados contra o governo bolchevique; 4) as convulsões sociais e políticas em diversos países europeus (Áustria, Hungria, Alemanha, Itália) e a sua correspondente dinâmica de revolução/contrarrevolução.

Este período de turbulências coloca, como novidade, um debate histórico, político, ideológico que, de certa forma, se prolonga ainda até ao presente.

Pelo contrário, os "grandes discursos" posmodernos sobre esta fase de 1914-1922, apagam de uma vez só a complexidade das confrontações de classes e de fracções de classes; as questões de estratégia política (e de poder) com todas as suas bifurcações; as crises institucionais dos regimes capitalistas; as tormentas sociais, políticas, culturais, com os seus efeitos a longo prazo ou até de curta duração.

A certeza peremptória com a qual diversos historiadores, intelectuais, académicos, e porta-vozes políticos, tratam Outubro de 1917, apoia-se mais na visão burguesa liberal do que num exame instruído e rigoroso do que realmente aconteceu.

3) Em 1914 inicia-se um traumatismo colossal nas sociedades europeias, cujo efeitos atingem a classe trabalhadora, as classes médias e os militares. A guerra (contrariamente ao previsto pela liderança do exército alemão), prolonga-se no tempo. Os componentes duma crise do movimento operário acumulam-se, e nos finais de 1915, são plenamente palpáveis.

Diversos "modelos" difundidos pelos partidos da II Internacional - que fazem eco dos interesses políticos, sociais e ideológicos dos trabalhadores e de uma ala crítica da guerra - também se vêem afectados. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) coloca o movimento operário internacional perante uma série de questões fundamentais: 1) o fatalismo optimista sobre a "maturação socialista" com as suas leis naturais, é questionado; 2) o modelo do grande partido "educador" do proletariado teorizado por Kautsky - que põe entre parênteses a aprendizagem e a formação de consciência adquirida nas greves de massas e os conselhos operários - é encurralado pela luta de classes; 3) a concepção ritualista duma proclamação internacionalista, mas renegada na prática sob o argumento do "realismo", leva aos prestigiosos dirigentes sociais-democratas a um realinhamento chauvinista nacional em Agosto de 1914 (votando os créditos da guerra): esta conversão chauvinista entra em contradição com as resistências duma ampla franja do movimento operário e popular; 4) a natureza da guerra ("guerra inter imperialista" para Lenin) e a explicação das razões da sua "explosão" e das suas causas; 5) sobre os tipos de crises revolucionárias surgidas nas sociedades capitalistas no contexto da Primeira Guerra Mundial.

4) Entre as figuras de Outubro de 1917, que se rebelam contra o curso chauvinista nacional e se dispõem tanto a denunciar a guerra, como a confrontar-se contra o parlamentarismo e os modelos partidários convertidos em dogma (que paralisaram o movimento operário), sobressai nitidamente Lenin, essa personagem tão desvalorizada hoje. Desde 1916, Lenin concentra todos os seus esforços para descobrir: 1) os traços constituintes da crise do imperialismo e a sua conexão com o tipo de Estados fortes (coincidindo nesta análise com Bujarin); 2) a perspectiva duma transformação radical da sociedade e das suas instituições, à escala internacional, como "resposta socialista" à guerra.

A sua reflexão aponta como perspectiva política a "via da Comuna de Paris 1871", desenhada pela emergência dos sovietes em Fevereiro de 1917. Lenin não se adapta por tacticismo à evolução da sociedade na Rússia; os elementos que o conduzem a uma conclusão já são apreciáveis em Janeiro de 1917, quando escreve o "Informe sobre a revolução de 1905". Na sua aproximação, a revolução é um ponto de partida que se encontra na crise do imperialismo; simultaneamente, constata que "Rússia é um país camponês, um dos mais atrasados da Europa". A Revolução Russa, então, é um "prólogo" para a revolução internacional: dispõe duma experiência prévia (1905), um potencial de mobilização operária e camponesa; e conta com um aliado principal: o "proletariado socialista europeu".

Simultaneamente, aparece com toda a sua força a "subversão leninista" em torno do lugar do partido na estratégia: organização do instrumento revolucionário, organização da revolução, organização da sociedade que nasce dessa mesma revolução.

Este percurso sistemático de Lenin não implica uma coerência sem falhas, nem definições a priori. Lenin (re)constrói permanentemente. Aproximações sucessivas, ajustes, ambivalências; elaboração duma orientação estratégica efectuada nos fluxos e no caos duma "guerra mundial" e de uma revolução ancorada num país tão enorme e desigual como a Rússia. Enfim, um Lenin muito diferente do que foi pintado nos manuais estalinistas e na monocórdica propaganda dos partidos comunistas.

 

5) O campo coberto pela análise de Lenin (e de outros revolucionários) contrasta com as críticas - passadas e presentes - quanto à "revolução prematura" ou à suposta "imaturidade" da sociedade russa. Tema abordado por Max Weber a pretexto da revolução de 1905, a qual definiu como "um levantamento insensato".

 

Aqui limitar-nos-emos a descrever apenas duas das perspectivas que prevaleceram, em particular antes de 1918: 1) uma corrente determinista económica, que entende que a dinâmica de desenvolvimento dispõe dum forte potencial na Rússia, por tanto, a perspectiva duma "democratização" inevitável da sociedade russa. A revolução de 1905, a repressão massiva que lhe segue, os "retrocessos institucionais", a política de guerra imperial do czarismo e o seu derrubamento em Fevereiro de 1917, aparecem de todas as formas como elementos "exógenos". As contradições não se encontram enraízadas no quadro dos antagonismos de classe que atravessam a formação social russa, mas limitam-se às "inércias" do regime de poder autocrático; 2) uma corrente revolucionária, para a qual entre fevereiro e outubro de 1917 vai-se configurando um quadro de forças sociais - com as suas representações em termos de partidos e instituições - que demonstra que os antagonismos dão, rapidamente, num confronto entre um bloco de classes sociais e de camadas exploradas e oprimidas, e o bloco das forças implantadas no passado imperial, da monarquia, do exército, das forças ultra-nacionalistas.

 

Com a queda do regime czarista e uma vez fracassado o parênteses democrático de Kerensky, o processo revolucionário acelera. É aí que o "poder dos sovietes" deverá confrontar-se "com o oceano camponês", como explica com fineza o historiador Moshe Lewin. Entretanto, espera-se o "aliado privilegiado": o proletariado europeu. Ou a aparição de crises revolucionárias noutros países. Neste contexto, o Estado é a única mediação que o "poder soviético" tem no seu vínculo com as massas operárias e camponesas. Aqui nasce o nó complexo das relações entre Partido-Estado-Sociedade.

 

6) Autores tão diversos como rigorosos que estudaram o período fevereiro-outubro de 1917 (Edward H. Carr, Moshe Lewin, Marcel Liebman, Beryl Williams, Stephen F. Cohen, Ernest Mandel, Pierre Broué, David Mandel, entre outros), demonstram, categoricamente, a importância decisiva da irrupção de enormes massas libertadas e comprometidas com a acção política. E a relevância dos sovietes como instrumentos de democracia directa: sufrágio universal, debate público, pluralismo político (pluripartidarismo) e tomada de decisões. Os sovietes actuam como vínculo de aprendizagem e exercício duma democracia de baixo para cima nunca antes conhecida. Instrumentos dum duplo poder instituído, onde operários, camponeses, soldados sublevados, viam - mais do que nos programas dos partidos ou na Assembleia Constituinte - "a solução para os seus problemas". Apesar das deficiências organizativas ou em matéria de representação, as massas consideravam os sovietes como "os seus órgãos" naturais de assembleia e resolução. O novo "poder soviético" nascido de Outubro 1917, terá um impacto enorme, à escala internacional, no coração de amplas camadas proletárias, e marca a possibilidade clara duma vitória sobre as classes dominantes. Fazendo palpável a capacidade dos dominados para apropriarem-se dos instrumentos próprios da sua auto-emancipação.

 

7) Esta dinâmica soviética irá perdendo fôlego. Entre a multiplicidade de factores que intervêm na curva descendente deste poder, vamos considerar algumas decisões político-institucionais: 1) a polémica dissolução da Assembleia Constituinte; 2) a integração dos sovietes no sistema de gestão administrativa (estatal) do Conselho de Comissários do Povo (Sovnarkom); 3) a centralização dos sovietes no Comité Executivo Pan-Russo (VTsIK), e particularmente as suas modalidades de gestão desde abril-maio de 1918; 4) a separação dos socialistas revolucionários de esquerda e dos mencheviques de esquerda, dos órgãos soviéticos centrais, em junho de 1918; 5) o controlo que, desde julho de 1918, passa a ter o Ministério dos Assuntos Internos sobre os principais sovietes; 6) os decretos e mandatos sobre as "cortes da justiça" ou sobre a Checa (Comissão Extraordinária para a Segurança do Estado) em novembro de 1918, que indicam a ausência duma consciência no domínio da democracia na revolução.

 

Estas decisões e os seus efeitos práticos, revelaram os perigos existentes entre a imposição de medidas para defender a revolução e as derivas autoritárias e arbitrárias. Isto num momento em que a guerra civil estava aí à porta.

 

8) A aliança social - em parte por conveniência e mesmo assim flutuante - entre amplas camadas camponesas e do partido bolchevique, é um elemento explicativo para olhar os sucessos político-militares desta guerra civil que culminou com a vitória do campo revolucionário. Os chefes brancos da reacção burguesa-imperialista nunca puderam estabilizar as relações com os camponeses, porque representavam o passado czarista, com a sua exploração, a sua opressão e a sua corrente de humilhações para os camponeses pobres. As forças reaccionárias eram a volta ao obscurantismo.


Mas a guerra civil acelera outros problemas: 1) a fractura do "tecido" social; 2) a crise económica que tem a amplitude duma catástrofe; 3) a desurbanização, que acentua a drástica redução dos "pólos operários"das fábricas; 4) a absorção de milhares de membros do partido bolchevique (e de outros partidos), nas tarefas militares do Exército vermelho ou em funções administrativas, com perdas humanas importantes e "reconversões" profissionais massivas. O pessoal político, administrativo e de "segurança", seleccionado em e para a guerra civil, passa a ocupar cargos no partido, no Exército vermelho e no Estado. O partido "militariza-se" e muda a sua base de composição. Ao finalizar a guerra civil, ficam muito poucos dos 25 mil membros de Fevereiro de 1917. Haveria que retroceder aos anos 1903-1912, para encontrar uma mutação tão significativa. Esta mudança nos membros do partido é uma ruptura da continuidade e da experiência acumulada, da formação e da tradição política do partido. Daí as dificuldades para compreender a "transição" dos anos 1923-1928 e a "passividade" perante o processo de burocratização.

 

9) Mesmo tendo em conta os estragos sociais, económicos e humanos da guerra civil, o partido bolchevique dispôs de certas capacidades tanto para operar mudanças como para uma elaboração táctica e estratégica. E foram aproveitadas. Prova disso é a instrução da Nova Política Económica (NEP) e os debates políticos que tiveram lugar.

 

No entanto, a limitação da democracia interna em 1921 (proibição das tendências e fracções no seio do partido), constitui um passo atrás que conduz ao fracasso da tentativa de restituir uma dialéctica de regeneração da sociedade e duma re-mobilização política consciente.

Esta proibição acabará por criar as condições para introduzir medidas autoritárias e repressivas (contra todas as forças políticas não-bolcheviques, mesmo que apoiassem a revolução) e impediu o desenvolvimento de instrumentos democráticos para debater, publicamente, as diferentes opções que se apresentavam no novo cenário político, económico e social, e para restabelecer as relações com os camponeses.

A sangrenta repressão contra a rebelião da "comuna" de Kronstadt (Março de 1921), com o seguinte esmagamento dos marinheiros considerados até então "orgulho e glória" da Revolução Russa, reforçou a viragem trágica do "poder soviético". Numa sociedade prostrada pelas penúrias e a destruição duma guerra civil alimentada pelos governos imperialistas, o percurso em direcção a um partido monolítico e administrativo acelerou-se. Os novos membros "seleccionados" nos anos 1919-1922, serão absorvidos pelo aparato do Partido-Estado com base aos seus "atributos" burocráticos. Iniciava-se o caminho da contra-revolução estalinista.

 

10) O sistema surgido deste período (1917-1922) e que se estende até 1928, não pode ser definido como uma "sociedade socialista". Nenhuma das considerações teóricas de Marx e Engels no seu tempo, como as de Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Karl Korsch e outros marxistas revolucionários, permitem chegar a essa conclusão. Menos ainda o desenvolvimento posterior do "estado operário degenerado".

 

Em todo caso, Outubro 1917 está impregnado pelo debate de ideias sobre a sua génese; a "ditadura do proletariado"; as diversas instituições que presidiram a afirmação da vitória do "poder soviético"; as contramarchas bolcheviques; o confronto revolução/contra-revolução; as discussões que marcaram cada uma das fases e das diferentes forças sociais e políticas que compunham o processo.

 

É nesse sentido que uma reflexão histórica sobre Outubro 1917 liga o passado com o presente, revelando a temática própria dum projecto de mudança radical da sociedade: o sujeito social ("força motriz") dessa mudança; os instrumentos políticos que esse sujeito deve construir; o programa de ruptura anticapitalista; a questão da estratégia ligada à "conquista do poder"; as relações entre classes sociais/partido e a auto-organização das massas.

 

Nas actuais condições da globalização capitalista e das suas consequências em termos de exploração, opressão e, em última análise, da agudização da luta de classes, Outubro 1917, pode, ainda, impulsionar a inteligência duma esquerda revolucionária. Sempre com a consciência da distância histórica que nos separa daquele "acontecimento" que abalou o mundo.

 

(1)Charles-André Udry é Membro do Movimento Pelo Socialismo (MPS) de Suíça e militante pela defesa dos direitos dos trabalhadores imigrantes. Economista e director da colecção Cahiers livres, Editions Page deux, e da revista A lencontre: (http://www.alencontre.org/). Integra a redacção do mensal La Breche (www.labreche.ch)

 
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