O processo revolucionário, de Fevereiro a Outubro de 1917 criar PDF versão para impressão
03-Nov-2007
Guardas do Exército VermelhoEm Fevereiro de 1917 inicia-se a parte mais importante do processo revolucionário. O czar concede poder a um governo provisório, que no entanto não cumprirá as promessas de "Pão, Terra e Paz". A Rússia continua a participar na primeira guerra mundial, frustrando os anseios do povo e dos soldados. Daqui até à Revolução de Outubro, os bolcheviques vão crescer muito rapidamente, assegurando a maioria em alguns sovietes estratégicos. Transcrevemos aqui um texto de João Aguiar, publicado no blogue "As vinhas da Ira", que retrata bem este período crucial.  


No dia 20 de Abril de 1917 o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Miliukov, confirmava a decisão do governo provisório (ver nota no final) em respeitar todos os tratados concluídos pelo governo do czar, ou seja, continuar com a presença na Rússia na guerra imperialista. No dia seguinte o operariado de Petrogrado realiza uma manifestação de protesto conseguindo juntar 100 mil operários e soldados. Face à contestação operária o governo provisório recua tacticamente. Demite Miliukov e coopta vários membros do Comité Executivo Central dos Sovietes: Skobelev, Tchernov, Tsereteli. Era a entrada de ministros dos partidos conciliadores no governo provisório que procurava a todo o custo derrubar o poder paralelo dos sovietes operários e camponeses. Entretanto, Kerensky muda de pasta governamental e passa a Ministro da Guerra e da Marinha. O novo executivo, dada a sua natureza de classe, em nada correspondia aos anseios revolucionários das massas:

«Vejamos o que procuravam alcançar as massas de operários e camponeses ao realizar a revolução. Que esperavam elas da revolução? É sabido que esperavam liberdade, paz, pão e terra. E o que vemos hoje?O povo quer a paz. Mas o governo reiniciou a guerra de conquista na base dos mesmos tratados secretos estabelecidos pelo ex-czar Nicolau II com os capitalistas ingleses e franceses, no interesse da pilhagem de outros povos pelos capitalistas russos.Não há pão. A fome aproxima-se novamente. Toda a gente vê que os capitalistas e os ricos obtêm lucros inauditos com os preços altos e absolutamente nada se faz para um controlo sério da produção e da distribuição dos produtos pelos operários. Os capitalistas tornam-se cada vez mais insolentes, põem os operários na rua, e isto no momento em que o povo sofre a falta de víveres e de meios de subsistência.Numa longa série de congressos, a imensa maioria dos camponeses declarou alta e claramente que considera a propriedade latifundiária da terra como uma injustiça e um roubo. E o governo provisório continua há meses a enganar os camponeses e a enche-los de promessas e adiamentos» (Lenine, 1978c, p.139-140).

O prolongamento desta situação iria resultar na convocação de uma manifestação por parte do Partido Bolchevique para o dia 10 de Junho. A esta convocatória responderia o CEC e o governo provisório com a proibição de manifestações de rua durante 3 dias, inviabilizando assim a manifestação. O Partido Bolchevique cancela a manifestação. No dia 12 a direcção socialista-revolucionária/menchevique do Congresso dos Sovietes aprovou uma resolução acerca da realização de uma manifestação para o dia 18. O objectivo era claro: ganhar as massas para o lado do governo provisório e passar a imagem de que a população estava de acordo com os propósitos do governo em continuar com a guerra imperialista. No dia da manifestação (18 de Junho) participaram 500 mil operários e soldados de Petrogrado. Contudo, a maioria dos participantes desfilou ao som das palavras de ordem do Partido Bolchevique contra a guerra imperialista o que constituiu um êxito retumbante do Partido de Lenine, evidenciando a sua crescente influência e prestígio junto das massas.

A esta grande iniciativa das massas operárias da capital seguiu-se a organização de uma nova manifestação para os dias 3 e 4 de Julho. As massas predispunham-se a realizar um levantamento armado contra o governo provisório. Mais de 500 mil operários saíram às ruas para preparar um ataque. Os manifestantes exigiam que o CEC dos Sovietes tomasse o poder nas suas mãos e o entregasse ao povo. Ao mesmo tempo, o Partido Bolchevique compreendeu que o sucesso de tal iniciativa não estava de modo algum assegurado e empreendeu esforços para que a manifestação decorresse de forma pacífica e ordeira. Assim aconteceu. Mesmo assim o governo provisório, com o consentimento do CEC socialista-revolucionário e menchevique, lançou destacamentos de soldados e cossacos contra-revolucionários que abriram fogo sobre os manifestantes. Iniciou-se a repressão aberta da luta operária e a perseguição aos bolcheviques. Estes vêem-se obrigados a passar à clandestinidade.

Porém, aumentava o fosso entre os interesses e aspirações do proletariado russo e da burguesia e da burguesia, dos operários organizados nos Sovietes e da burguesia agrupada em torno do governo de Kerensky. Os desaires militares sucediam-se, a desarticulação do exército prosseguia e a contestação operária ameaçava permanentemente o poder político burguês. A incapacidade de o governo provisório colocar um ponto final no clima de instabilidade social levou à saída do partido democrata-constitucionalista (o partido da burguesia) do governo provisório, deixando Kerensky e os partidos socialista-revolucionário e menchevique à sua mercê.

É nesta altura - Agosto de 1917 - que se dá a contra-insurreição de Kornilov, um levantamento armado contra-revolucionário da burguesia e dos latifundiários feudais. A classe dirigente tinha-se unido e a única solução para salvaguardar o poder político estatal era, portanto, sair do governo provisório e realizar um putsch armado que derrubasse de vez não só o governo provisório mas, sobretudo, que assegurasse uma repressão impiedosa do operariado e do campesinato russos.

Kerensky sempre foi conivente com a preparação do golpe de Kornilov, mas quando se apercebeu que não iria ser poupado denunciou Kornilov como amotinado contra o governo provisório. O Partido Bolchevique, por sua vez, iria em conjunto com o proletariado de Petrogrado erguer barricadas contra a revanche de Kornilov e conseguiram derrotá-la. De referir que grande parte dos cossacos de Kornilov recusou combater contra a Guarda Vermelha, o que proporcionou uma vitória rápida aos operários e soldados de Petrogrado.

Deste acontecimento resultou um conjunto de efeitos. O primeiro consistiu numa derrota em toda a linha da burguesia e da aristocracia russas. Um segundo efeito correspondeu ao isolamento completo do governo de Kerensky. Com as classes dominantes desmoralizadas e temporariamente sem saber o que fazer (estado de letargia que durou pouco tempo pois em meados de 1918, com amplo apoio e participação do imperialismo internacional, iniciaram a sangrenta Guerra Civil de 1918-21), o exército regular de rastos, a formação e proliferação de milícias populares armadas, a Kerensky só lhe restava resistir como pudesse e ganhar tempo até que os alemães entrassem na Rússia e desbaratassem as hostes bolcheviques e os sovietes de operários, soldados e camponeses.

Riga, actual capital da Letónia, foi entregue ao governo alemão e Petrogrado estava em vias disso segundo o que mais tarde se veio a tomar conhecimento através da publicação dos tratados secretos estabelecidos entre Kerensky e o governo alemão. A Revolução de 25 de Outubro, com a tomada do Palácio de Inverno, impediu que a carnificina sobre a revolta operária tivesse ocorrido. Um terceiro efeito teve a ver com a enorme ascensão do Partido Bolchevique junto das massas. Prestígio e influência expressas na vitória esmagadora dos bolcheviques nas eleições para os sovietes de Moscovo e Petrogrado, as duas maiores cidades do país.

Neste quadro em que o Partido Bolchevique se tornou a força dirigente e maioritária na condução da luta popular e onde, em simultâneo, a disposição do proletariado em tomar o poder de Estado era bem vincada e afirmativamente evidenciada na desconfiança relativamente aos mencheviques e aos socialistas-revolucionários, a saída foi a insurreição popular de 25 de Outubro e a tomada do Palácio de Inverno. Esse dia ficou marcado na História da humanidade a letras de ouro, e expressou, de um lado, a luta das massas populares contra as classes dominantes e, de outro lado, a abnegação dos revolucionários bolcheviques, com Lenine à cabeça, a sua fidelidade ao marxismo (o que é sinónimo de fidelidade aos interesses do povo explorado e oprimido), a sua coerência de princípios e a sua maleabilidade táctica que lhes permitiu ajustar a orientação e actuação do Partido aos diversificados andamentos e movimentos, às curvas e contracurvas do processo revolucionário.


Nota do Esquerda.net:
Em Abril de 1917 o Governo Provisório era composto por mencheviques, socialistas revolucionários e pelo partido da Liberdade do Povo, o único assumidamente burguês. Os bolcheviques estavam fora do Governo provisório e acusavam mencheviques e socialistas revolucionários de fazerem o jogo da burguesia. Muitos mencheviques internacionalistas e também muitos socialistas revolucionários de esquerda viriam a juntar-se aos bolcheviques.

 
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