Rankings, para que te quero... criar PDF versão para impressão
31-Out-2007
miguel_reis.jpgO que os Rankings mostram não são os projectos inovadores de algumas escolas nem o esforço meritório de outras. Mostram sim as disparidades sociais existentes no país, tanto entre o litoral e o interior, como entre bairros abastados e bairros pobres à volta dos centros urbanos.

O Presidente da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo sabe para que quer os rankings. Eles são a melhor forma de mostrar o sucesso do ensino privado e por isso o Estado deve dar às famílias "liberdade de escolha" dos estabelecimentos de ensino, pagando integralmente os custos da aprendizagem aos que inscreverem os filhos em escolas privadas.

E o país ficava melhor. Imaginem todos os alunos no Ensino Privado, com prestações de 300 e 400 euros mensais integralmente pagas pelo Estado e.... o problema do insucesso escolar resolvido. Afinal, as privadas, com a sua cultura do esforço, do mérito e a qualidade do ensino podem ser a solução para retirar Portugal da cauda da Europa.

Mas nem tudo é aquilo que parece. O Colégio S. João de Brito, que pertence à Companhia de Jesus, há vários anos que se mantém nos primeiros lugares do ranking nacional de escolas. No entanto, como o blogue "zero de conduta" bem notou, a companhia de Jesus tem mais dois colégios privados, um em Santo Tirso e outro no distrito de Coimbra. Estes dois colégios estão na posição 164 e 249 do ranking de escolas (lista DN).

E é o próprio director do colégio S. João de Brito quem reconhece que, havendo nos três colégios métodos pedagógicos idênticos e a mesma qualidade ao nível do ensino, a diferença está nos alunos. Ao contrário do S. João de Brito em que só entram os alunos que podem pagar, estes dois colégios mal classificados recebem alunos pobres através de contratos com o Ministério da Educação, ou seja, com as prestações mensais pagas pelo Estado. Afinal, onde está o milagre da escola privada?

O que os Rankings mostram não são os projectos inovadores de algumas escolas nem o esforço meritório de outras. Mostram sim as disparidades sociais existentes no país, tanto entre o litoral e o interior, como entre bairros abastados e bairros pobres à volta dos centros urbanos.

O estabelecimento pior classificado (598ª) do distrito de Lisboa é a Escola Doutor Azevedo Neves, na Damaia: 80% dos seus alunos são imigrantes ou filhos de imigrantes. Recebe estudantes de bairros "problemáticos"  como a "Cova da Moura", o "6 de Maio", ou o "Estrela de África". As condições socio-económicos são em geral muito baixas e em casa quase nunca se fala português. Acresce a isto que os alunos com más notas e mau comportamento de outras escolas da Amadora e de Sintra são transferidos precisamente para a Escola Azevedo Neves. Por alma de quem?

O Governo vem dizer que não tem responsabilidade sobre os rankings e que apenas divulga os dados que os jornais trabalham. Só que é inegável que eles mostram o fracasso da escola em corrigir as desigualdades sociais de partida. Se os rankings podem ser úteis, sejam públicos ou não, é precisamente para o governo agir. Seja obrigando as escolas a não seleccionar alunos, seja apoiando todas aquelas que estão em zonas mais desfavorecidas, nos subúrbios ou no interior. A demissão do governo só pode significar a agudização da actual situação: as escolas com melhores resultados tendem a seleccionar ainda mais, para aparecerem nas primeiras páginas dos jornais, e as piores, envoltas em publicidade negativa, continuarão a afundar-se.

Miguel Reis

 
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