Macabra rotina diária criar PDF versão para impressão
21-Ago-2006
Luís LeiriaDerrotado no Líbano, o governo de Israel pode bem estar a preparar uma vingança sobre os palestinianos. Ou estar já a aplicá-la. Na verdade, o Exército israelita nunca parou de assassinar palestinianos durante a guerra do Líbano. Fontes médicas citadas pelo jornal egípcio Al Ahram informaram que 187 palestinianos foram mortos, a maioria na Faixa de Gaza, desde o início de Julho.

Para Riyad Awad, director do Centro de Informação de Saúde, situado em Gaza, "não passa um dia sem que o Exército de Israel mate uma média de cinco ou seis palestinianos, a maioria crianças, mulheres e outros civis inocentes." Riyad chamou a este massacre quotidiano de "Macabra rotina diária".

Também aumentam as humilhações aos palestinianos que procuram atravessar os checkpoints, denuncia o grupo de direitos humanos israelita B'tzelem, citado pelo diário Haaretz.

Mas o pior é a continuidade da prática de raptos às autoridades palestinianas. No sábado 19, de madrugada, foi raptado de sua casa o vice-primeiro ministro e ministro da Educação da Autoridade Palestiniana, Naser El-Deen El-Sha'er, pelas forças de ocupação. El-Sha'er foi juntar-se a Aziz Dweik, presidente do Parlamento, preso dia 6 de Agosto, e a oito membros do governo e 21 deputados detidos a 6 de Julho. O último detido foi já no dia 20, Mahmoud al-Rahmi, secretário-geral do Parlamento palestiniano.

As prisões de Naser El-Deen El-Sha'er e de Mahmoud al-Rahmi também podem significar um recado às lideranças palestinianas, justamente num momento em que estão em curso negociações para se formar um governo de unidade nacional, que teria o apoio das cinco principais facções palestinianas, incluindo o Hamas e a Jihad Islâmica, como já anunciáramos no Esquerda.

O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, já admitiu que o chamado Plano de Convergência, isto é, a retirada unilateral de Israel de alguns colonatos e o reforço do Muro que cerca os territórios palestinianos, morreu junto com a guerra do Líbano. Detalhe: Olmert foi eleito justamente para aplicar o Plano de Convergência, que era o centro do programa do seu partido Kadima.

Também continuam estagnadas as negociações mediadas pelo Egipto para trocar o soldado israelita capturado por mulheres e crianças palestinianas presas. Em resumo: humilhado pelo Hezbollah, o governo israelita parece decidido a descarregar a sua frustração sobre os palestinianos, que não têm qualquer hipótese de oferecer uma resistência semelhante à da guerrilha libanesa. Ora frustração não é um programa político. Antes do Plano de Convergência havia a Paz de Oslo, e depois o Roteiro de Paz de Bush e Condoleeza. E agora, o que vai Olmert fazer?

Na semana passada, o primeiro-ministro palestiniano, Ismail Haniyeh, propôs que se encarasse com seriedade a possibilidade de dissolver a Autoridade Palestiniana. Disse que "estamos a enganar-nos a nós mesmos e a dar ao mundo uma impressão errada de que existe um governo nacional palestiniano, quando o exército de ocupação israelita está a matar qualquer réstia de autoridade e a raptar ministros e deputados, e forçando outros a entrar na clandestinidade." O presidente Mahmoud Abbas disse que essa ideia estava fora de questão, mas um dos chefes da Fatah em Túnis, Farouk Qaddumi, citado pelo Al Ahram, apoiou-a, dizendo: "Qual o interesse de manter uma Autoridade que não tem autoridade?" A continuar o actual massacre quotidiano e as prisões de dirigentes palestinianos, a ponderação de Qaddumi faz todo o sentido.

 
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