Jogos de bastidor em teatro de operações criar PDF versão para impressão
05-Nov-2007

Miguel PortasO melhor pretexto para bombardeamentos sobre Teerão continua a ser a derrapagem da crise libanesa. Dois presidentes e dois governos a 25 de Novembro, seriam uma extraordinária prenda para que o dedo seja apontado para longe, até onde alcançam as bombas.

Em post anterior do blogue Sem Muros - Não há fumo sem fogo - analisei os sinais que nos aproximam do maior risco que o mundo enfrenta nos próximos dois a três meses - bombardeamentos sobre Teerão e escalada no Médio Oriente, a pretexto do agravamento da crise libanesa.

Vale a pena actualizar as informações disponíveis. A mais recente surge no Expresso desta semana, pela pena de Henrique Cymerman, um jornalista geralmente bem informado nos meios militares israelitas, e insuspeito de quaisquer simpatias pelo "inimigo":

"O governo de Israel ordenou às suas FFAA e serviços secretos que ultimem os preparativos para uma acção militar contra as instalações nucleares iranianas"

O resto do artigo é pura transcrição do discurso oficial israelita. Ele termina com a explicação da decisão, pela boca Tzvi Yehezkeli, analista ligado ao Shin Bet, os serviços de informação de telavive:

"Israel não se pode dar ao luxo de pôr o seu futuro nas mãos de terceiros. Por isso, o governo ordenou às forças de segurança que se preparem para o pior cenário possível: Israel ter de actuar sozinha"

Claro que a decisão constitui também um recado para Washington. Se não forem vocês, vamos nós. Talvez seja bom decidirmos o quando e o como em conjunto...

A Casa Branca em dificuldades

Não seria a primeira vez que Israel colocaria os EUA ante factos consumados. Mas neste caso são muitas as fraquezas que se juntam e quando tal acontece os riscos de derrapagem são enormes.

Condoleezza Rice iniciou hoje a sua derradeira ronda para tentar salvar a Conferência Internacional de Paz. Em Washington passou-se do optimismo ao pessimismo. Do lado israelita, todos os sinais contrariam a lógica que prepara os sucessos. Olmert deveria estar a distribuir ramos de oliveira em matéria de prisioneiros e check points. Sucede que está a fazer rigorosamente o contrário - os cortes de electricidade a Gaza foram apenas a última das mensagens. O problema é que Telavive não tem nada de substancial para dar aos palestinianos. Aceita, no máximo, uma declaração genérica comum.

Diz-se em Washington que Mahmoud Abbas, o presidente palestiniano, tem "expectativas totalmente irrealistas". Conheço o homem e a última coisa que ele será na vida é um sonhador. O problema é que não pode aceitar desta negociação menos do que um compromisso claro sobre o fim da estrada - o desenho de um Estado palestiniano com fronteiras definidas. Não tem margem interna para um refresh do road map. E não manda em Gaza. As expectativas são proporcionais à fraqueza de um presidente sob suspeita. Até agora, o máximo que a liderança palestiniana admite é uma conferência em dois tempos. Mas só existirá o segundo fôlego se o primeiro prometer algo mais do que uma mão cheia de nada. Abbas tem ainda a braços a sua própria intransigência no que respeita ao diálogo com o Hamas, que se faz por via indirecta e em capitais árabes. Sucede que sem Hamas, nenhum acordo com a parte palestiniana dá garantias a Telavive.

O grande número da Casa Branca encontra-se, assim, em cheque. E sem ele, Rice não conseguirá meter os "islamistas moderados" no bolso... antes da tormenta.

O estranho caso das armas norte-americanas do PKK.

Tem sido muito pouco comentado o facto do exército turco ter, nas suas operações militares contra o PKK, apreendido mais de mil armas made in USA. Mas é este singular troféu de guerra que está a envenenar as relações Turquia/EUA, o que levou C. Rice a afirmar, anteontem, que "ninguém devia duvidar do empenho dos EUA nesta questão".

Claro que os EUA consideram o PKK uma organização terrorista. Sucede é que os jogos de bastidores no Médio Oriente não são simples partidas de xadrez entre adversários definidos. Todos jogam com os curdos e estes não se fazem rogados e respondem na mesma moeda. Em teoria, os curdos iraquianos de Talabani e Barzani têm interesse em preservar a margem de autonomia do seu território no Norte do Iraque. Mas esse não é o único critério de decisão. Eles também sabem que o seu povo é solidário com os curdos da Turquia. Não podem, por isso, permitir uma invasão do seu território pelo exército que há décadas os reprime. O PKK é o produto dessa luta e, portanto, o assunto deve ser resolvido às boas.

Paradoxalmente, os EUA também não querem incendiar a única região do Iraque que tem sido relativamente poupada à guerra. O Curdistão iraquiano é o seu único "troféu" na aventura mesopotâmica. Mas há mais, visto de Washington: como o verdadeiro alvo é o Irão, a Casa Branca têm-se entretido a alimentar a revolta dos curdos do Irão. E Telavive também. Sucede que o partido da resistência do Curdistão iraniano - o Pejak - é um aliado, para não dizer uma extensão do PKK... e agora você já percebe porque são norte-americanas as armas apreendidas ao PKK... e porque andam os turcos de candeias às avessas com o seu protector.

Pior ainda, entre a Turquia, a Síria e o Irão começa a desenhar-se uma aliança contra os curdos que ainda mal começou a dar dores de cabeça aos aprendizes de feiticeiro em Washington. Como é que este "sub-conflito" vai evoluir é coisa que ainda se percebe mal. Para já, o líder histórico do PKK, Abullah Oçalan, declarou da prisão "estar aberto a qualquer solução de tipo diplomático". E o seu partido anunciou a intenção de libertar oito militares turcos. Veremos. Uma trégua é evidentemente o único caminho para evitar mais um salto no escuro. Mas as forças em jogo no terreno ditam mais do que os interesses do Império.

Kouchner com Walid Mouahem...

O outro factor que preocupa a Casa Branca é que o Eliseu parece estar com "ideias próprias" em matéria de Médio Oriente. Na semana passada, Bernard Kouchner encontrou-se em Istambul com o seu homólogo sírio, um diplomata experiente que nunca mostra estados de alma. Não podiam ser mais diferentes, mas o encontro, a avaliar pela imprensa francesa, foi produtivo. Kouchner "avisou" Damasco para não se intrometer nas presidenciais libanesas, mas ambos concordaram na necessidade do novo presidente dispor de "um apoio largamente maioritário" e de a eleição ser feita "de acordo com a Constituição". Mais significativo, é que W. Mouahem, pela primeira vez, se tenha mostrado aberto à abertura de uma embaixada síria em Beirute "depois das eleições". Troque-se por miúdos: se Paris e Damasco se entenderem na solução política concreta para o Líbano - e esta não é difícil de encontrar - acaba-se a política de bloqueio da era Chirac.

... e Saad Hariri com Michel Aoun

Um outro encontro discreto ocorreu em Paris - entre os dois principais líderes de facção no Líbano. De acordo com as minhas fontes, a reunião não foi conclusiva. Mas ocorreu, o que já não é mau, e em território francês, o que constitui o terceiro sinal dado pelo Eliseu de que optou por uma solução de compromisso entre os campos adversários. O primeiro tinha sido dado quando Kouchner se havia deslocado a Beirute na companhia dos seus homólogos espanhol e italiano, com uma posição comum em favor de uma solução constitucional para a crise libanesa.
A posição do Sul da Europa condiciona neste momento a de Bruxelas. Ela diverge da de Washington, neste momento o único verdadeiro obstáculo a uma solução negociada. Dentro de uma semana, o Parlamento libanês fará a sua terceira tentativa de reunião com o quórum legalmente exigido. Com acordo, reunir-se-á. Sem acordo, a oposição voltará a não comparecer. É ainda o mais provável. A tremideira pode arrastar-se até 24 de Novembro, o deadline para uma solução nos prazos legais.

Até lá, muita água ainda vai correr sob a hipotética ponte de um compromisso entre inimigos. Não são de excluir novos atentados que cerrem as fileiras no campo sob influência dos EUA. Com efeito, o melhor pretexto para bombardeamentos sobre Teerão continua a ser a derrapagem da crise libanesa. Dois presidentes e dois governos a 25 de Novembro, seriam uma extraordinária prenda para que o dedo seja apontado para longe, até onde alcançam as bombas.

Texto publicado no blogue Europa Sem Muros

 
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