Elogio do hospital público criar PDF versão para impressão
07-Nov-2007

João Teixeira LopesPor azares da vida o meu pai adoeceu e teve de ser internado no Hospital de Santo António, no Porto. Ao visitá-lo, dei-me conta da qualidade dos serviços prestados, do profissionalismo de médicos, enfermeiros e auxiliares, das novas tecnologias utilizadas nos diagnósticos e tratamentos. Sei bem que o meu pai não teria dinheiro para pagar toda aquela panóplia de cuidados.

Mas muito mais se aprende ao visitar diariamente um hospital público. Em primeiro lugar, é um local de diversidade social, verdadeiro espaço partilhado e de interacção entre diferentes. Encontrei por lá pessoas de todas as classes sociais. Ao lado do meu pai, que trabalha no serviço de contencioso de um sindicato, estiveram acamados, numa enfermaria com capacidade para três camas, dois operários metalúrgicos. Um deles, já reformado, com 78 anos, sofre uma doença pulmonar resultado da exposição de décadas laboriosas a um material tóxico. Contudo, não cabe nos apertados limites normativos que estabelecem a classificação de doença profissional... Outro, de 71 anos, ainda trabalha, porque a reforma seria escassa, dado o baixo salário e os poucos anos de desconto. Mas por lá encontrei, também, professores universitários e quadros superiores, ainda que proliferassem as franjas populares. Naquele sector, as doenças estão ainda mais fortemente relacionadas com as condições materiais de existência.

Aprendi ainda outras coisas de espantar... O meu pai terá de ser operado. Existem três hospitais que realizam essa cirurgia. Dois deles têm volumosas listas de espera. Um outro não, porque descarta os «casos difíceis», de alto risco e longa convalescença, de maneira a apresentar «performances» brilhantes.

Talvez por isso, ao despedir-me do operário metalúrgico de 71 anos e da sua família e quando confrontado com uma interpelação de um dos filhos, que me reconheceu como sendo do Bloco de Esquerda, tenha feito a promessa política que menos me custou até hoje: «sim, dar-lhes-emos luta».

João Teixeira Lopes

 
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