Foi bonita a festa, pá! criar PDF versão para impressão
25-Ago-2006
daniel_oliveira.jpgA festa foi bonita mas durou pouco. Marcelo Caetano teria feito agora cem lindas primaveras e o retrato do último ditador foi retocado para as comemorações. Quem visse um dos documentários que a televisão pública nos ofereceu chegaria a esta perturbante conclusão: Marcelo Caetano era um anti-fascista. Um anti-fascista com azar, mas um anti-fascista. Não fosse a casmurrice dos ultras, a falta de colaborações dos liberais, as sabotagens de comunistas, socialistas e oposicionistas de variada natureza, o cinismo dos americanos, a incompreensão dos europeus, os esquemas dos russos, a maçada da guerra, a falta de clarividência dos africanos, o extremismo de Spínola, a impaciência dos militares e a insubordinação da PIDE (que não entendeu a subliminar mensagem que trazia a mudança do seu nome) e tudo teria corrido pelo melhor.

Tivemos até direito a um chazinho com a filha do simpático homem de Estado. Contou-nos como era um bom homem, como nem dormia a pensar na guerra e nem assim a guerra se ia embora e como ouvia «passarinhos da primavera» quando se apaixonou pela senhora sua mãe. No fim, um momento cultural: a senhora Caetano, que naturalmente se orgulha do seu pai, leu-nos um simples mas tocante poema escrito no difícil exílio brasileiro. E explicou como o senhor era de gostos simples. Contou-nos tudo: dos seus sempre brilhantes amigos com não menos brilhantes filhos que se tornaram em seus brilhantes discípulos e da sua absoluta entrega ao País. Onde quer que estivesse, fosse na Câmara Corporativa ou na Mocidade Portuguesa, no Ministério do Ultramar ou na Presidência do Conselho de Ministros, Marcelo só pensava no seu bom povo.

Devagar, devagarinho, lá se vai recontando a história. E um dia destes teremos de exigir aos que foram torturados na António Maria Cardoso e encerrados nas prisões da PIDE/DGS, aos militares que fizeram o 25 de Abril e aos portugueses que nele se envolveram, que venham fazer a sua merecida auto-critica. Tinham o homem certo. Porque não o ajudaram?

 

 
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