Que futuro para as Cidades? criar PDF versão para impressão
16-Nov-2007
Rita CalvárioTornar as cidades sustentáveis é um processo político que deve actuar ao nível do planeamento e gestão urbana. Integrar as dimensões ambientais, sociais, económicas e institucionais numa visão ecossistémica para promover comunidades urbanas coesas e com qualidade de vida é uma necessidade.

O século XX assistiu a uma rápida urbanização da população mundial. A proporção de população urbana cresceu de 13% em 1900 para 29% em 1950, e atingiu os 49% em 2005. De acordo com as tendências actuais é expectável que 60% da população mundial viva em cidades em 2030, ou seja, 4,9 milhões de pessoas.

Em 2005, a Europa, América Latina e do Norte e a Oceânia tinham mais de 70% da sua população total em cidades. E em 2030 é expectável que 50% ou mais da população de África e Ásia vivam em cidades. (World Urbanization Prospects 2005).

A Europa é um dos continentes mais urbanizados da Terra, já que cerca de 75 % da população vive em áreas urbanas, com mais de um quarto do seu território consagrado a fins urbanísticos. Estima-se que em 2020 cerca de 80% dos europeus viverá em áreas urbanas, podendo esta percentagem ser superior em 90% nalguns países. (Agência Europeia de Ambiente, 2006)

A maioria das cidades enfrenta hoje um conjunto de problemas ambientais que tenderá a agravar-se - má qualidade do ar, trânsito congestionado e fraca mobilidade, ruído, pressão urbanística e falta de espaços públicos, emissões de gases de efeito de estufa e grande volume de resíduos. Estes problemas são também responsáveis por promover e agravar os problemas sociais (ex. pior qualidade de vida, maior conflitualidade social, reduzidos níveis de saúde, pobreza e exclusão).

O desenvolvimento urbano sustentável torna-se um desafio incontornável e mais premente do que nunca. Basta ter em conta o problema das alterações climáticas, para o qual as cidades contribuem de forma decisiva (níveis elevados e crescentes de consumo de energia, mobilidade assente no automóvel, entre outros) e as quais serão as principais afectadas (inundações, ondas de calor, escassez de água, entre outros). Por exemplo, algumas das mega-cidades (com 10 milhões de habitantes ou mais) que se situam junto do litoral (e.g. Bombaim, Lagos, Cairo, Nova Iorque e Shangai) são das mais ameaçadas pela subida do nível do mar, o que significará custos humanos catastróficos, sobretudo para os mais pobres.  

Tornar as cidades sustentáveis é um processo político que deve actuar ao nível do planeamento e gestão urbana. Integrar as dimensões ambientais, sociais, económicas e institucionais numa visão ecossistémica para promover comunidades urbanas coesas e com qualidade de vida é uma necessidade. Isso significa ter cidades auto-suficientes em termos energéticos e uma mobilidade para as pessoas que não priorize o automóvel, espaços públicos de encontro e lazer e valorização estética e natural da cidade, mistura de funções e actividades económicas e sociais e evitar a segmentação de espaços, produção local para consumo local minimizando impactos e dependência do exterior e promovendo o emprego local, mistura e diversidade social evitando a segregação e exclusão, capacitação das pessoas e priorizar a participação pública democrática, etc.  

Existem vários projectos de ecocidades ou cidades sustentáveis que adoptam estes princípios e que podem servir de exemplo para a requalificação das nossas cidades.

Por exemplo, a Urbanização Energia Zero de Beddington (BedZed) localizada a sul de Londres, formada por 100 habitações e escritórios, é energeticamente independente do exterior, as necessidades de aquecimento são em cerca de 90% inferiores à média britânica, a utilização de água também é cerca de 40% inferior à média britânica (faz o aproveitamento das águas pluviais), utiliza materiais de construção disponíveis localmente, incentiva as pessoas a não usar o automóvel através de um regime de partilha de veículos e circuitos para pedestres e ciclistas, .... Outro exemplo é o projecto BO01 no sul da Suécia, o qual consistiu na reabilitação de uma zona portuária e industrial abandonada e contaminada numa zona residencial e de serviços assente no uso a 100% de energias renováveis, mobilidade baseada nos pedestres e transportes públicos frequentes, aproveitamento das águas das chuvas, espaços verdes e protecção da biodiversidade, multifuncionalidade e diversidade social, .... Mas existem muitos outros que são interessantes e podem servir de inspiração para o presente.

Rita Calvário

 
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