Um bom negócio vale sempre uma mentira criar PDF versão para impressão
19-Nov-2007
Carlos SantosSócrates, não contente em imitar Barroso, decidiu mesmo imitar Santana Lopes e voltámos ao tempo das trapalhadas. E tudo porquê? Porque um bom negócio vale sempre uma mentira ou até mesmo uma trapalhada.

Durão Barroso confessou, sobre a guerra do Iraque, que "houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade" (entrevista ao DN, 18/11/2007).

Depois de Blair, Bush e Aznar, Barroso reconfirma o que já se sabia: que os pretextos para a invasão do Iraque e a guerra assentaram nas mais descaradas mentiras. Não falou, no entanto, das desgraças causadas, não pediu desculpa ao povo do Iraque e ao mundo inteiro. Para ele, desde que se esteja com a administração norte-americana está tudo bem. Também não referiu o que já é publicamente indesmentível, que a administração Bush já tinha decidido invadir o Iraque um ano antes.

E falta sobretudo a conclusão que a guerra foi decidida em grande parte por causa do petróleo. Um bom negócio vale sempre uma mentira.

E é aqui que Sócrates se aproxima de Barroso. Depois de ter assinado um decreto-lei onde é expressamente referido que a concessão das estradas portuguesas à empresa Estradas de Portugal S.A. "expira às 24 horas do dia 31 de Dezembro de 2099", o primeiro-ministro negou a evidência, em pleno debate no plenário da Assembleia da República. Mas Sócrates foi ainda mais longe, acusou o deputado Francisco Louçã de: passar "por cima de factos para que os factos não atrapalhem uma boa história". Afinal, os factos eram claros e a mentira também.

Os factos só precisavam de ser negados para que não ficasse evidente um bom negócio, o negócio das estradas que Louçã denunciara.

Posteriormente o Governo aprovou uma resolução, onde a concessão é restringida para 75 anos. Os juristas são unânimes em considerar que a resolução é ilegal, porque vai contra um decreto-lei. Ambos são do Governo que primeiro decidiu uma coisa e depois outra. Porquê? Para sustentar a mentira do primeiro-ministro, tudo o indica, e também para que o negócio afinal vá para a frente, sem mais problemas.

Sócrates, não contente em imitar Barroso, decidiu mesmo imitar Santana Lopes e voltámos ao tempo das trapalhadas. E tudo porquê? Porque um bom negócio vale sempre uma mentira ou até mesmo uma trapalhada.

De facto, o negócio é espantoso e chorudo.

O Estado cria uma empresa a quem vai dar a concessão das estradas portuguesas, no decreto-lei até 1999, na resolução por 75 anos. Para que a empresa tenha receitas é-lhe dado um imposto. As Estradas de Portugal serão uma sociedade anónima, mas para que não fique totalmente claro o negócio, não será para já privatizada. Mas só com esse objectivo se compreende que seja uma sociedade anónima. E durante 75 ou 92 anos teremos uma empresa, que amanhã será privatizada, que fará a gestão de todas as estradas portuguesas, que tem receitas garantidas e poderá ainda criar outras, e que claro garantirá sempre lucro aos seus accionistas. Bens públicos, serviço público, que se lixem... Um bom negócio vale tudo isso.

Uma política assim precisa ser contestada e combatida. A greve geral da função pública anunciada para o fim deste mês, merece todo o apoio.

Carlos Santos (Editorial do jornal Esquerda nº. 24)

 
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