Iraque pacificado? criar PDF versão para impressão
20-Nov-2007
Rui BorgesA guerra iraquiana já demonstrou que aquilo que parece um imenso sucesso de Bush rapidamente se transforma apenas num momento menos mau de uma guerra, que parece cada vez mais perdida.

O aumento do número de soldados americanos no Iraque (chegaram mais de 30 mil na primeira metade deste ano) está na base de uma onda de optimismo que tem varrido a Casa Branca e a Zona Verde: o aumento da repressão levou a uma diminuição da violência em mais de 50% e um lento regresso àquilo que no Iraque ocupado se poderá chamar uma vida normal.

Estes novos resultados na condução da ocupação são um trunfo político que os partidários da guerra não deixarão de tentar utilizar. Importa por isso relembrar alguns factos resultantes da estratégia da Casa Branca.

Segundo o Crescente Vermelho Iraquiano e a Organização Internacional para as Migrações a violência sectária e o número de deslocados aumentou de forma acentuada com a chegada dos reforços americanos. Em cada bairro e em cada cidade os grupos maioritários, xiitas ou sunitas, tentaram estabelecer a sua supremacia aproveitando o clima de violência proporcionado pela presença de mais 30 mil soldados. Num relatório de Agosto a própria Casa Branca anuncia uma relativa acalmia nos combates entre iraquianos mas admite que esta se deve em grande parte ao desaparecimento das zonas de população mista resultante dos processos de limpeza étnica.

Por sua vez, o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki anunciou triunfalmente no início deste mês o regresso de 7000 mil famílias a Bagdad como prova do novo clima de paz que se vive no país. Este número, independentemente da sua precisão, deve ser encarado com a maior suspeição. A guerra criou uma enorme vaga de refugiados em direcção à Síria (1.5 milhões de iraquianos) e à Jordânia (700 mil). A Jordânia estabeleceu limites rígidos à entrada de iraquianos há mais de um ano e desde aí a Síria recebeu entre 2000 a 4000 refugiados por dia tornando-se a principal rota de fuga à guerra. No entanto no início de Outubro o governo de Damasco fechou as fronteiras aos refugiados e aprovou uma lei que na prática obriga ao regresso dos iraquianos ao seu país. A decisão foi tomada após longa pressão por parte de Al-Maliki que considerava que a fuga dos iraquianos estava a minar os esforços de estabilização do país. Assim se alimentam as estatísticas do sucesso da ocupação à custa daqueles que são proibidos de fugir à guerra.

Por último os falcões de Washington exultam com a redução do número de baixas que o exército americano sofreu nos últimos meses. É verdade que o aumento do número de soldados no terreno pode ter levado a resistência a recuar. Mas levou também, como ensinam os manuais de combate à guerrilha, a um aumento das buscas domiciliárias, das humilhações, da tortura, das prisões e mortes arbitrárias. E isso certamente alimentará uma nova vaga de descontentes prontos a pegar em armas pela liberdade do seu país.

A guerra iraquiana já demonstrou que aquilo que parece um imenso sucesso de Bush rapidamente se transforma apenas num momento menos mau de uma guerra, que parece cada vez mais perdida.

Rui Borges

 
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