"A luta contra o CPE... criar PDF versão para impressão


entrevista de Luís Leiria
foto de Paulete Matos

...mostrou que é possível ter vitórias"

A vitória contra o CPE faz parte de um processo que passou também pelo "não" à Constituição Europeia e por uma onda de greves radicalizadas em França, disse Laurent Bauer ao Esquerda. Nesta entrevista, o estudante da universidade de Paris I Tolbiac, de 22 anos, que participou da direcção do movimento, relata como foi organizada e funcionava a coordenação nacional e explica as semelhanças e diferenças com o Maio de 68.

Conta-nos como foi formada a coordenação nacional dos estudantes.

As coordenações são órgãos que permitem a auto-organização, para que seja a base a controlar democraticamente os destinos do movimento. Historicamente, em França, são as JCR (Juventudes Comunistas Revolucionárias, ligadas à Ligue Communiste Révolutionnaire, LCR) que estão na origem das coordenações. Neste caso, conseguimos o apoio de certas correntes libertárias. No início, foi difícil. Para que a coordenação funcionasse era preciso o apoio e a participação de todas as correntes políticas,  desde as mais à direita, como os socialistas, que dominam o sindicato estudantil mais importante, a UNEF, às correntes mais esquerdistas, como os anarquistas. Mas à força de discutir e de organizar reuniões, foi possível convencê-los todos a participar. O que fizemos foi levar as discussões políticas ao interior desta coordenação, para permitir que todos os estudantes, estivessem ou não organizados politicamente, pudessem participar das decisões.

A primeira reunião da coordenação ocorreu em Rennes, no início do mês de Fevereiro. Nessa altura havia três faculdades em greve e foi possível reunir delegações destas três e mais representantes de outras 40 como observadores. A UNEF sentiu-se obrigada a participar, porque viu que se ficasse ausente iria perder a direcção política. Cada universidade elegia uma delegação com números precisos: sete representantes por universidade que estivesse em greve e cinco por universidade mobilizada mas que ainda não estava em greve.

Qual o motivo desta diferença?

Achámos que era legítimo que as universidades em greve, que faziam piquetes e bloqueavam a sua faculdade, tivessem mais peso do que as que não estavam em greve. Era uma questão de legitimidade.

As delegações à coordenação eram eleitas antes de cada reunião, ou eram sempre os mesmos?

As coordenações nacionais reuniam-se semanalmente, numa cidade diferente - a primeira foi em Rennes, depois Toulouse, em seguida Paris, depois Poitiers, etc. -, e todas as semanas as assembleias gerais das universidades reelegiam uma delegação, porque a cada momento as discussões evoluíam nas universidades. Por isso, havia também uma batalha política em cada universidade para saber quem ia ser eleito.Mas isto era feito com o debate, com a base, porque eram as pessoas que escolhiam directamente quem queriam.

Houve também um debate sobre o tipo de mandato que tinham os delegados. Os anarquistas defendiam que os delegados só podiam pronunciar-se sobre o que tinha sido discutido e posto em acta na assembleia geral. Não tinham de forma alguma direito a se pronunciar sobre assuntos que não tinham sido debatidos na assembleia. Os burocratas da maioria da UNEF defendiam mandato livre, isto é, os delegados poderiam fazer o que quisessem na assembleia. Nós defendemos uma terceira alternativa, que chamámos de semi-imperativa, em que os delegados deviam defender o que fora decidido na assembleia, mas tinham o direito de iniciativa em relação a novas questões, às discussões que surgiam na coordenação.

Como fizeram a ligação com os trabalhadores?

Houve várias etapas. No início era feita por organizações estudantis que já tinham ligações com sindicatos de trabalhadores. Por exemplo, o sindicato estudantil em que eu participo, o Sud Étudiant, mais à esquerda que a UNEF e que é maioritário na minha faculdade, faz parte de uma grande confederação ligada a sindicatos dos trabalhadores e, portanto, já tem ligações. Depois, as centrais sindicais convidaram a UNEF a participar na Intersindical. As próprias assembleias gerais estudantis criaram comissões responsáveis por se reunir com as uniões sindicais locais. A nível da coordenação nacional foram eleitos porta-vozes para ir às reuniões da Intersindical.

E como era a recepção nas fábricas?

Muito boa. No Maio de 68, quando os estalinistas eram muito fortes no movimento operário, nas fábricas recebiam os estudantes de pedras na mão. Agora, fomos sempre muito bem recebidos, houve secções locais da CGT que alugaram autocarros para levar os estudantes às empresas. Como a minha faculdade fica perto da Gare de Lyon, nós organizámos equipas de estudantes que se encontraram com os ferroviários, fomos às reuniões sindicais, e eles ficaram muito contentes de nos ver, ficaram motivados para fazer greve, a vinda dos estudantes convenceu-os, houve uma boa troca de pontos de vista.

Conseguimos mostrar aos trabalhadores que não era apenas uma questão de solidariedade com os jovens, como diziam as direcções sindicais. Explicámos que o que queríamos era uma luta em comum, porque tratava-se de um ataque ao Estado social e os alvos são todos, jovens e velhos, e se ganharmos será todos juntos. Dizíamos: se não travamos agora o CPE, vai atingir depois todos. Pouco a pouco, fomos ganhando os trabalhadores para esta perspectiva.

Quer dizer que os trabalhadores também retiraram lições?

Esta luta mostrou que é possível ganhar. Não são só as eleições que permitem mudar as coisas. E isso dá confiança a milhões de trabalhadores em França. A última vitória parcial, em 1995, quando houve uma greve quase geral que paralisou toda a economia do país, também iniciou um novo ciclo de lutas. Tivemos o "não" à Constituição Europeia, uma vitória eleitoral que veio do movimento social: no Outono, antes das rebeliões dos subúrbios, houve greves importantes dos trabalhadores do Porto de Marselha. Greves muito duras, os marinheiros desviaram navios e entraram em conflito com as forças de elite do Exército e da Polícia. Foi um conjunto de acontecimentos que fez com que as lutas se radicalizassem em França.

A coordenação nacional dos estudantes posicionou-se pela demissão do governo Villepin...

No início foram sobretudo as JCR, contra a opinião dos burocratas da UNEF, que só pensavam nas eleições de 2007 e dos anarquistas, que diziam que se o governo fosse derrubado haveria novas eleições e eles o que queriam era destruir o Estado... A nossa argumentação foi abrindo caminho e convencendo. Na assembleia geral na nossa faculdade ganhámos a proposta de acrescentar a demissão de Villepin à lista de reivindicações. Na coordenação em Poitiers, fui eu a fazer a primeira intervenção, mas foi claramente rejeitada. Nas ruas, à medida que a luta se radicalizava, os slogans iam mudando. No início eram apenas contra o CPE, mas depois foram ganhando conteúdo político. Por exemplo: "Quem semeia a miséria recolhe a cólera" e ainda "Chirac, Villepin, Sarkozy, acabou o vosso período de experiência". Rapidamente os socialistas foram ultrapassados pela radicalização do movimento. Até que a coordenação aprovou a reivindicação de demissão de Villepin, três reuniões.

 
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