O que quer Putin? criar PDF versão para impressão
24-Nov-2007
immanuel_wallerstein.jpgPutin quer, como os russos quiseram durante séculos, ser aceite como um protagonista principal do sistema-mundo. Sente evidentemente que os Estados Unidos, e até a Europa ocidental, usaram o interlúdio Yeltsin para ignorar a Rússia. Parece confiar que a maré virou, principalmente devido às mudanças na economia-mundo. E, confiante no futuro, Putin apresenta as suas condições.

 

Perguntar o que quer Putin é o mesmo que perguntar o que quer a Rússia? Penso que as respostas às duas questões estão muito próximas. Em qualquer caso, Putin não foi tímido quando quis informar-nos das suas pretensões em nome da Rússia. Usou duas conferências europeias de alto nível para comunicar exactamente as suas preocupações. A primeira foi no seu discurso na 43ª Conferência de Munique sobre a Política de Segurança em 2 de Outubro de 2007, na presença da chanceler Angela Merkel da Alemanha. E a segunda foi na conferência de imprensa que se seguiu à cimeira da União Europeia em Lisboa em 26 de Outubro.

Putin abriu as suas observações em Munique dizendo que iria evitar "delicadezas excessivas" e "dizer o que realmente penso sobre os problemas de segurança internacional." Começou por uma apreciação e uma crítica à política externa dos EUA. Chamou de "perniciosa" a ideia de um mundo unipolar, não só para os outros, mas para a "própria soberania". O modelo unipolar era não só "inaceitável mas também impossível no mundo de hoje".

Falou do crescente desdenho pelos princípios básicos da lei internacional, e disse que "primeiro, e acima de tudo, os Estados Unidos ultrapassaram as suas fronteiras nacionais de todas as formas." Disse que isto era "extremamente perigoso". Insistiu que o uso da força só ode ser justificado se for "sancionado pela ONU", e que não se pode "substituir a ONU pela NATO ou pela União Europeia". Advertiu especificamente contra a "militarização do espaço exterior". Lembrou a todos do discurso do então secretário-geral da NATO Manfred Woerner em 17 de Maio de 1990, no qual este deu à Rússia "uma firme garantia de segurança" de que a NATO não colocaria um exército da NATO "fora do território da Alemanha". Putin perguntou: "Onde estão estas garantias?"

Em seguida virou-se para a questão da luta contra contra a pobreza no mundo. Defendeu que os recursos que estão a ser destinados para estes fins estão ligados ao desenvolvimento das empresas dos países doadores. "E vamos dizer as coisas como elas são - uma mão dá ajuda caritativa e a outra não só preserva o atraso económico como também colhe lucro disso."

Putin foi ainda mais provocador em Lisboa, onde disse que a política americana na Europa, e especificamente as suas propostas sobre instalação de mísseis, é semelhante à da crise dos mísseis de Cuba. "Está a ser montada uma ameaça nas nossas fronteiras". Tendo feito a analogia, disse que não havia agora uma crise semelhante, devido à mudança de relações da Rússia com a União Europeia e os Estados Unidos. Acrescentou (com um sorriso?) que "com o presidente Bush, há uma relação de confiança. Penso que tenho o direito de lhe chamar de amigo pessoal, tal como ele me chama."

Putin disse claramente aos Estados Unidos e à Europa que, se querem uma renovação da estrutura militar da Europa, podem tê-la. Mas se não querem, vão ter de reconsiderar a presente política. No entanto, Putin não pôs todos os ovos neste cesto. Porque ele confia que a situação geopolítica está a mudar, devido à transformação da economia-mundo.

O presidente da Rússia lembrou que o Produto Nacional Bruto combinado em paridade de poder de compra da Índia e da China já é maior que o dos Estados Unidos. E se fizermos os mesmos cálculos para os chamados países BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - vão ultrapassar o PNB cumulativo da União Europeia. E acrescentou: "de acordo com os especialistas, esta diferença só vai aumentar no futuro." Como Putin disse, é óbvio que este potencial será "inevitavelmente convertido em influência política e reforçará a multipolaridade."

Putin até acenou com a cenoura económica. Apontou que "empresas estrangeiras participam em todos os nossos principais projectos energéticos". Vinte e seis por cento da extracção de petróleo é feita pelo capital externo. "Tentem, tentem encontrar um exemplo semelhante em que empresas russas participem extensivamente em sectores-chave da economia dos países ocidentais. Não existem exemplos destes! Não existem!"

Putin quer, como os russos quiseram durante séculos, ser aceite como um protagonista principal do sistema-mundo. Sente evidentemente que os Estados Unidos, e até a Europa ocidental, usaram o interlúdio Yeltsin para ignorar a Rússia. Parece confiar que a maré virou, principalmente devido às mudanças na economia-mundo. E, confiante no futuro, Putin apresenta as suas condições. Parece estar a pedir à Europa uma cooperação activa e aos Estados Unidos uma trégua militar de facto. Veremos na próxima década que sucesso estas políticas vão ter.

Immanuel Wallerstein, 15 de Novembro de 2007

 
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