A apropriação do tempo criar PDF versão para impressão
26-Nov-2007
isabel_faria.jpgA recente greve na Valorsul trouxe à ordem do dia a luta pela posse do nosso tempo. Ao pretender apropriar-se, sem qualquer custo nem contrapartida, de quatro horas diárias dos seus trabalhadores, a Administração da Valorsul está a poupar dinheiro e a não criar emprego.

Em questões da propriedade do tempo, o quotidiano das nossas empresas e serviços, já significa um retrocesso de um século.

A precariedade, os contratos a prazo eternos, cuja rescisão ou continuação depende, na sua quase totalidade, da disponibilidade total para a cedência total do seu tempo por parte do trabalhador, e, agora, a Flexisegurança, que se avizinha, voltam-nos a colocar nas vésperas do 1º de Maio de 1826. Contar o horário de trabalho, não ao dia, mas ao mês ou ao ano, dá à entidade patronal a posse total do nosso tempo.

Não podemos confirmar, com o tempo que não nos pertence, que iremos à festa de Natal da Escola do nosso filho. Quem nos pode assegurar, com uma semana de antecedência, que, nesse dia, no dia em que nos comprometemos a ajudá-lo a pôr as barbas do Pai Natal, a empresa não precisa de nós 12 ou 14 horas? Não podemos marcar aquela reunião, em que estaríamos cumprindo o nosso dever cívico de cidadãos participativos e interventivos. Quem pode garantir que o horário de saída do serviço é às 18.00 horas?

Os salários baixos, obrigam-nos, muitas vezes, a usar o tempo de descanso para fazer horas extraordinárias, que nos permitem, no final do mês, pagar a prestação da casa ou comprar os livros escolares. Mas, aqui, ainda somos nós, os donos do nosso tempo. Por momentos, "traímos" a justa luta dos trabalhadores de Chicago, em nome da melhoria das nossas condições de vida. Ao pretender a flexibilidade total do horário de trabalho, é a entidade patronal quem dele se apropria. Não em nome da melhoria das nossas condições de vida. Em nome, exclusivo, da quantidade dos seus lucros.

A recente greve na Valorsul trouxe à ordem do dia a luta pela posse do nosso tempo. Ao pretender apropriar-se, sem qualquer custo nem contrapartida, de quatro horas diárias dos seus trabalhadores, a Administração da Valorsul está a poupar dinheiro e a não criar emprego.

Os trabalhadores, esses, ficam com oito horas para mudar de roupa, tomar os transportes públicos para a sua residência, tomar a sua refeição, estar com a sua família, descansar, voltar a tomar os transportes públicos para regressar ao trabalho, voltar a fardar-se e retomar o trabalho. Na melhor das hipóteses, pode ser que consigam dormir cinco horas...a ajuda para o trabalho de matemática é que terá que esperar para o fim-de-semana...ou, mais seguro, para as férias.

Em troca não têm nada. Pode ser que um qualquer crédito pessoal dessas empresas milagrosas e altruístas que nos ajudam nos momentos difíceis em troco do endividamento para toda a vida, possa pagar a contribuição da casa atrasada, que, com o constante aumento de juros, já não pode ser só paga com o dinheiro do salário, agora que as horas extraordinárias acabaram. Com mais este compromisso ao fim do mês, as entidades patronais dão mais um passo seguro para uma outra apropriação - a do direito à Greve. Quem pode dispor de um dia de salário para lutar contra a arbitrariedade e a ganância, com a casa que aumenta, o novo crédito para pagar os outros dois créditos em atraso, os livros da escola...

Os arautos da propriedade privada, com a ajuda prestável dos Governos neo-liberais, acrescentam mais uma ao seu pecúlio: o tempo total dos seus trabalhadores. A flexisegurança será, apenas, mais uma ajuda. Para evitar que, contra a corrente, possam surgir Valorsuis.

Isabel Faria

 
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