Afeganistão: seis anos de quê? criar PDF versão para impressão
27-Nov-2007
Miguel ReisEnquanto de Lisboa a Washington se glorifica o combate pela "exportação dos valores da liberdade e democracia", eis que 2007 já é o ano mais sangrento no Afeganistão, a corrupção generalizou-se, o país gira cada vez mais à volta do produção ilegal de ópio, e os únicos "avanços" em seis anos de ocupação foram uma estrada, um oleoduto e uma rede de antenas de telemóvel.

"já cá tou...e quero dizer apenas que isto é o fim do mundo...uma miséria indescritível...mas que nos vamos habituando aos poucos..." Sérgio Pedrosa, 22 anos, foi o segundo militar português a morrer no Afeganistão. Alguns dirão que morreu pelos "valores da pátria". Mas qual o resultado de seis anos de ocupação, em nome da "exportação da liberdade"?

O relatório do Senlis Council , publicado em Novembro, diz-nos que os Taliban já controlam 54% do território e que a chegada a Cabul, capital do país, é apenas uma questão de tempo. E, acrescentaria eu, de muito sangue derramado. Cada ano é pior que o outro: mais civis mortos, mais guerrilheiros mortos, mais militares das forças de ocupação mortos. O Afeganistão sofre quatro vezes mais ataques aéreos por parte das forças internacionais do que o Iraque.

Mas não é só a guerra que devassa o país. Há poucas semanas, o jornal britânico The Times revelou que um general afegão, para poder ser chefe da polícia de uma cidade, teria que pagar "150 mil". O pobre do general pagou "150 mil" e foi expulso. Qual foi o pecado? Os tais "150 mil" eram para ser pagos em dólares e não na moeda local. A corrupção governamental no Afeganistão tornou-se endémica, e os subornos são moeda corrente para conseguir cargos administrativos nas rotas dominadas pelo tráfico de drogas.

Desde 2001, depois da queda do regime dos taliban, calcula-se que o aumento da produção de ópio foi de 1500%, abastecendo dois terços do mercado mundial e 90% do europeu. Estima-se que este negócio dá trabalho a 2,3 milhões de afegãos (de uma população de 29 milhões, da qual mais de 30% está no desemprego e mais de 70% vive abaixo do limiar de pobreza) e gera 60% do produto nacional bruto do país. O Sencils Council defende que a única saída é a legalização do cultivo e a sua transformação em morfina e codeína, para abastecer a procura mundial de analgésicos à base de ópio, que é muito menor que a oferta. No ano de 2002, 77% da morfina à escala mundial foi consumida por 7 países ricos e estima-se que apenas 24% dos casos de dor aguda foram atendidos. Uma saída que está longe de agradar à ortodoxia proibicionista.

Passados seis anos de ocupação, 70% dos fundos inicialmente destinados a ajudar na reconstrução do Afeganistão foram utilizados em actividades militares "anti-terroristas". Apenas foi construída uma estrada (que liga Cabul a Kandahar, a cidade do presidente Karzai), o oleoduto que conecta com o Turquemenistão, e uma moderna rede de antenas de telemóvel. Não foi construída nenhuma represa ou grande sistema de abastecimento de água. Só um em cada três residentes em Cabul tem energia eléctrica, apenas uma em cada três noites.

E mesmo a grande vitória acenada pelos ocupantes, a libertação das mulheres da opressão selvagem a que o regime talibã as submetia, deixa muito a desejar. Não são apenas os pequenos episódios, como a guerra que o governo afegão abriu contra a televisão que mostrou um concerto de Shakira, com as suas ancas dançantes. Em entrevista, uma das activistas da Associação de Mulheres Revolucionárias do Afeganistão (RAWA), acusa o governo de Karzai de manter os fundamentalistas em todas as áreas do poder e de legitimar o desrespeito quotidiano pelos direitos humanos: violações, casamentos forçados, mulheres raptadas. E denuncia que às forças de ocupação "não lhes importa se os fundamentalistas são o terror, o que lhes importa é que beneficiem as suas políticas". Ou não tivessem os próprios EUA apoiado os talibans na luta contra os soldados soviéticos...

É por tudo isto que as declarações do embaixador dos EUA em Portugal parecem tiradas de uma peça de teatro. Alfred Hoffman está "profundamente preocupado" com a redução do contingente português no Afeganistão, que vai deixar desamparada "a jovem democracia afegã". A nossa grande preocupação é outra: garantir a retirada imediata de todas as tropas. Nunca lá deviam ter estado.

Miguel Reis

 
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