Annapolis: três mãos cheias de nada criar PDF versão para impressão
28-Nov-2007
Miguel PortasPara a Casa Branca a Palestina tem sido um pormenor. Adquire agora importância porque Bush está de partida e tudo lhe corre mal. Ele precisa de um número para a fotografia como de pão para a boca.

1. Estava para ser uma Conferência e afinal é um Meeting. A desqualificação é a medida do fracasso para lá dos holofotes e declarações de circunstância.

2. Annapolis é um encontro de fraquezas.

Israel gostaria de, um dia, viver em Paz com os seus vizinhos. Mas não tem terra para oferecer. Muito menos pela mão de um líder a prazo, refém dos religiosos, do partido da imigração russa e de um exército que nos territórios ocupados se transformou numa força de polícia. Sem proposta para um horizonte final, Israel só quer dos palestinianos a segurança dos seus próprios cidadãos contra as morteiradas artesanais lançadas de Gaza e os homens-bomba da Cisjordânia.

A Palestina quer um Estado. Já agora, viável. Se a primeira condição esbarra na recusa de Israel em discutir fronteiras - precisamente o que define uma soberania territorial -, a segunda é um quebra-cabeças para depois de amanhã. A Palestina quer ainda a regulação dos contenciosos criados pela História: o direito de retorno dos refugiados de 1948 e 1967 às suas terras, o desmantelamento dos colonatos, a capital em Jerusalém. Mas a Palestina parte para Annapolis dividida e com um líder que depende mais da protecção internacional que do seu povo. Abbas não tem como dar aos israelitas o que eles querem - o fim dos grupos armados - nem força para colocar na mesa das negociações o que poderia calar as armas.

Para a Casa Branca a Palestina tem sido um pormenor. Adquire agora importância porque Bush está de partida e tudo lhe corre mal. Ele precisa de um número para a fotografia como de pão para a boca. E quer unir ocidente e líderes árabes moderados contra Teerão, a derradeira estação da sua atribulada viagem guerreira pelo Médio Oriente. O diálogo entre israelitas e palestinianos encaixa quer na urgência, quer na aventura. Mas Bush teria de confrontar o seu principal braço na região para obter resultados palpáveis. Mesmo que o desejasse - e manifestamente não quer - falta-lhe a autoridade para isso. Ele é um imperador com os dias contados.

3. Da soma das fraquezas resulta esta reunião. Aparentemente, nem declaração comum de circunstância se fará. Na melhor das hipóteses, Blair anunciará quatro projectos económicos de uma lista de dez (seis foram rejeitados por Telavive). E se correr mesmo muito bem, Olmert concretizará a promessa de libertar 450 prisioneiros, apesar de mais de 600 terem ido parar às prisões israelitas desde que tal anúncio foi feito. Por outras palavras: se correr muito bem tudo ficará como dantes. Se correr mal, também.

4. Os outros actores fazem parte do cenário. Temos a União Europeia em peso e compreende-se: é de sua competência pagar as facturas dos estragos que Israel faz nos territórios que ocupou e na prisão de Gaza. Lá estará para garantir que assim continuará a ser. A Liga Árabe também picou o ponto. Mas nem a Arábia Saudita nem a Síria apostam um cêntimo no êxito do conclave. Estão lá para dizer que a foto de família é a sua oferta às aparências. Quanto ao mais, aguardam pelo futuro presidente dos EUA.

5. Mais importante do que a reunião de hoje é o encontro de amanhã entre Olmert e Bush sobre o dossier iraniano. Os dois aliados estudarão os cenários e o modus operandi do próximo capítulo da guerra preventiva. Os bombardeamentos sobre o Irão continuam em cima da mesa. Como nela estará também a atitude face à Síria. Para Olmert, a Siria conta mais do que a Palestina e percebe-se porquê - aí tem os montes Golã para negociar contra uma separação entre Damasco e Teerão. Já a Casa Branca dá sinais muito contraditórios. A hipótese de Olmert agrada-lhe, mas poucos acreditam nela.

Teerão sabe que a pressão não será levantada. Ao proceder, ontem e anteontem, a exercícios militares que envolveram 8 milhões de pessoas anunciou-o ao Mundo. O exército de Israel e o Hezbollah fizeram o mesmo no princípio deste mês. Por aquelas bandas todos levam muito a sério o cenário de guerra. Nós também deveríamos levar.

6. Cenários de guerra são o que explicam o actual vazio institucional no Líbano. Nenhum dos blocos arrisca a iniciativa. Nem a maioria parlamentar elegeu o seu presidente, nem a oposição avançou para uma situação de duplo poder. Ninguém quer ser responsabilizado por tomar a iniciativa. E quem pode conquistar o poder - a oposição - evita fazê-lo porque fácil é o assalto, mas difícil o que se segue. Neste jogo de nervos, o exército marca pontos. Mas alguém acabará por perder a cabeça. Sem compromisso, é inevitável a escalada. Também este capítulo será abordado entre Bush e Olmert. A Casa Branca dá sinais de ter mais do que uma política. E de qualquer modo delegou em Sarkozy a defesa dos "interesses ocidentais", coisa que o seu MNE, Kouchner, gosta de interpretar livremente. No país dos cedros, o primeiro-ministro tem o mesmo problema de Abbas, mas agravado: depende de fora e não de dentro.

7. Referindo-se ao século XX, Hobsbawn chamou-lhe curto. Parafraseando, diria que nos encontramos numa das mais longas semanas do século XXI. Como se o tempo tivesse sido suspenso enquanto os guerreiros preparam a batalha.

Miguel Portas, blogue Sem Muros

 
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