Carris: Vender gato por lebre criar PDF versão para impressão
29-Ago-2006

heitor_sousa.jpgA Carris anuncia para o próximo dia 9 de Setembro, contra a decisão do município de Lisboa, um conjunto de alterações significativas na sua rede, abrangendo 36 carreiras de autocarros (40% do total) e envolvendo a supressão pura e simples de 8 carreiras, a supressão de diversos serviços, chamados nocturnos (20-24h), sábados e domingos, e ainda vários ajustamentos no percursos das carreiras: nuns casos (no total, a maioria), cortes, noutros casos, extensões das mesmas.
A "operação" é anunciada com grandes parangonas, tentando "vender" a ideia de que se vai apenas "melhorar o serviço". Mas, o pobre tem razões para desconfiar.

É que (a Carris não o diz, mas deduz-se facilmente) olhando com um bocadinho de vagar para a dita "reestruturação", e fazendo o balanço da oferta da empresa, antes e depois, em termos de quilómetros percorridos pelos autocarros, o saldo será negativo, ou seja, a empresa vai passar a oferecer menos do que oferecia; se for feito o balanço em termos de grau de cobertura da rede da área da cidade (kms de rede/km2 de área), o saldo continuará a ser negativo; se for em termos de grau de cobertura da rede da população a servir, em nº de transbordos, em tempos totais de viagem, etc, etc, o resultado é sempre o mesmo: pelo mesmo preço, os utentes ("clientes" como a Carris gosta de chamar...) vão ter de se acomodar a um serviço pior. Mas, por exemplo, o aumento em Julho dos preços do transporte, que surgiu para "compensar" os transportadores que ofereciam determinado nível de serviço, foi feito no pressuposto que esse serviço se manteria...

Isto, é o que suspeitamos dos "números" da coisa. E "suspeitamos" porque esses números deviam ser públicos, para toda a gente ver e analisar. Mas não, isto até é capaz de se saber, lá na empresa, mas fica no segredo dos computadores. Pode a administração (e o governo) "comprar" as campanhas que quiserem para dourar a pílula, mas no final, vai ser difícil explicar como é que desaparecendo oito carreiras e apenas se criando uma (a 773, em parte, sobre a antiga 13), se melhora um serviço de transportes...

Havia, é certo, um caminho para tentar mostrar qualquer coisa: era provar que os chamados "clientes" das carreiras a suprimir (ou a encurtar) não queriam mais utilizar essas carreiras. Estavam dispostos, por exemplo, a aceitar que, para ir do Bairro de Caselas para o centro da cidade, vão passar a ter de mudar de carreira uma vez para chegar ao destino; ou que, para ir do Centro Comercial Colombo para as Olaias, já não se poder ir no 67 até ao fim, mas tem de se mudar no Areeiro...Os exemplos poderiam ser multiplicados, pelo menos, por 36, porque foram 36 as alterações que a Carris se prepara para fazer, sem as justificar com base no simples acto de interrogar as pessoas.

Ou será que a Carris fez recentemente algum estudo da sua procura, na base do qual tenha chegado à conclusão que as origens/destinos de muitas das suas carreiras já não se justificavam e estamos nós para aqui a "malhar em ferro frio"?

Se sim, então a Carris não precisa de gastar dinheiro em publicidade para convencer as pessoas da justeza das suas decisões: estará segura que essas decisões não colidem com os interesses das pessoas e bastará mostrar os resultados dos estudos e dos pressupostos de que partiu. Infelizmente, suspeitamos (mais uma vez) ter razão.

Assim, entramos na velha história do "gato por lebre". Mesmo que agora, a suposta fundamentação seja feita com recurso a um programa de computador, o método privilegiado nas escolhas feitas não foi mais do que o "velho" método do... "olhómetro". Mais ou menos, tipo..."se acabarmos com esta carreira, vê lá o que isto dá em termos de redução do prejuízo da empresa e como é que o pessoal se arranja!".

Mas as justificações da empresa não ficam por essa história mal contada de "falta de procura". Também se diz que o "objectivo central é a adequação à evolução recente e prevista, a curto e médio prazo, do Sistema de Transportes Urbanos, promovendo, de forma ajustada com os restantes modos e operadores, a concretização de um efectivo sistema de transportes".

Basicamente, temos a Carris transformada em Autoridade Metropolitana de Transportes. Não é a Carris que se deverá ajustar às necessidades e níveis de serviço a que um Sistema de Transportes Urbano para a AML deverá responder, com base numa definição de uma autoridade metropolitana de transportes. Não. É a Carris que antecipa essas necessidades e decisões e põe-se ao caminho, mesmo que vá contra a opinião de alguém que deveria integrar essa autoridade metropolitana, como é o caso da Câmara Municipal de Lisboa.

Ou seja: a Câmara está contra, mas a Carris borrifa-se, porque a lei em vigor (que já vem desde 1948, pois a Lei de Bases, aprovada em 1990, nunca entrou em vigor) e porque os termos do contrato de concessão de transportes à Carris (aprovados em 1973, por um período de 50 anos) faz depender as alterações na rede apenas da aprovação do Governo. E portanto, a Carris vai continuar alegremente a funcionar de costas voltadas para a cidade, para se servir da cidade (por exemplo, estender a obsessão do défice ao serviço público de transportes) em vez de servir a cidade e a população.

É claro que quem anda em Lisboa, e utiliza os transportes públicos, sabe que a Carris deve mudar a sua rede. Até porque continuar a perder passageiros sem nada fazer é o caminho para o abismo... Mas o sentido da mudança não é o de reduzir o seu serviço mas sim, pelo menos, uma de duas possibilidades: ou fazer melhor, com os mesmos kms oferecidos, ou fazer melhor, oferecendo mais e melhores kms de rede.

Mais. O sentido desta mudança, especialmente das carreiras que serão eliminadas, é ainda mais absurdo: vão ser eliminadas não as carreiras que, por hipótese, fazem quase todo o seu trajecto em cima de uma linha do metropolitano, mas precisamente carreiras que não o têm e que são carreiras transversais, quase todas elas ligando a uma área da cidade que não tem metro nenhum (precisamente, a zona ocidental). É o caso das carreiras 33, 43, 63, 85, 105, 113 e 115 (sete em oito)1. Só a carreira 114 é que não preenche estas características: é de serviço local, à zona da ParqueExpo e de rebatimento ao metropolitano (e aqui a questão é: numa zona que está a crescer fortemente em termos residenciais e de serviços, não seria mais avisado alterar apenas o percurso da carreira para servir melhor a zona do que simplesmente acabar com ela?!). Portanto, a história de "ajustar às alterações da rede do Metro" (que ainda por cima só vão ser sensíveis daqui a mais de um ano!) não passa de mais umas balelas...

Quando se olha para as melhorias anunciadas, tais como a criação da designada rede7 (uma parte estruturante da rede, leia-se, uma espécie de cartão de visita da empresa para o público), não resistimos a esboçar um sorrido amarelo. Veja-se, por exemplo, a frequência (isto é, a qualidade do serviço) que a Carris promete cumprir nessa rede - 4 veículos nos períodos de ponta, ou seja, uma frequência de 15 em 15 minutos - e compare-se com a frequência, no mesmo período, do metropolitano: 2-3 minutos....

É verdade, sei que aos que não têm outro remédio que esperar pelo autocarro apetece, sim, é chorar (de desespero) mas fica no ar a pergunta: quantas pessoas estarão dispostas a esperar por um autocarro 5-6 vezes mais do que por um outro transporte, muitas vezes, ali mesmo ao lado?

Pôr a questão é, neste caso, responder-lhe. E responder também à tal "magna" questão de saber porque perde a Carris passageiros, todos os anos.


1 Em rigor, haveria que acrescentar a quase supressão das cª 49 e 68, que reduzem 1/3 do seu percurso. São as próximas a acabar...

 
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