Polónia: do obscurantismo ao neoliberalismo feroz criar PDF versão para impressão
17-Dez-2007
Donald Tusk, novo primeiro ministro polacoHá muitos anos que a Polónia não tinha tanto destaque internacional. Pena que tenha sido pelos piores motivos: as medidas ultra conservadoras e moralistas dos gémeos Kaczynski povoaram com frequência os jornais no ano de 2007. Frenesim que parece ter terminado com a vitória do partido de centro-direita Plataforma Cívica, a 21 de Outubro. O novo primeiro-ministro, que sucede a Jaroslaw Kaczynski, anunciou a boa nova da retirada das tropas polacas do Iraque, embora a nível económico e social se prepare para uma campanha de privatizações.  

Foi em Outubro que se levantou o véu medieval que cobriu a polónia durante dois anos. Com 44% dos votos, o Partido de cariz liberal "Plataforma Cívica" derrotou o Partido Direito e Justiça do primeiro ministro da altura, Jaroslaw Kaczynski (30,4%). A taxa de afluência às urnas superou os 55%, o que constitui um recorde em legislativas no país desde a instauração da democracia.

E não era para menos. Durante esses dois anos, a lista de "maldades" do bicéfalo poder político polaco situa-se entre o inanarrável, o cómico e o trágico. Com Lech Kaczynski a Presidente e Jaroslaw Kaczynski a Primeiro Ministro, ambos com o mesmo programa, do partido ultra-conservador (que fez alianças com a extrema-direita), aterrorizaram muitos sectores da sociedade polaca.

A medida mais emblemática foi a Lei da Lustração, cujo objectivo era perseguir todos aqueles que em algum momento colaboraram com o anterior regime comunista. Em causa estavam cerca de 700 mil jornalistas, professores, advogados e executivos de empresas cotadas na Bolsa de Varsóvia, que eram obrigados a responder a um questionário onde se pergunta se, alguma vez, "secretamente e com conhecimento, colaborou com os antigos serviços de segurança". Esses questionários eram enviados ao Instituto da Memória Nacional, para serem averiguados. Nada constando, o indivíduo recebia um certificado de " pureza política". Caso contrário, o despedimento era automático. Quem se recusasse a responder, ficava proibido de exercer a sua profissão por 10 anos.

A "revolução moral" encetada pelos irmãos Kaczynski não serviu apenas para fazer ajustes de contas com o passado. Além da caça às bruxas aos comunistas, os gémeos tiveram como principal alvo todos aqueles que fugiam à norma heterossexual, desdobrando-se em insultos contra a comunidade homossexual, proferidos sem mais nem menos em numerosos actos oficiais. Pior ainda, passaram à prática, impedindo pessoas LGBT de trabalhar em creches, hospitais e escolas.

E depois foram todos aqueles pequenos grandes episódios: a organização de extrema-direita polaca "Liga das Famílias Polacas" (LPR), que fez parte da coligação governamental, sustentou que os seres humanas já existem desde o tempo dos dinossauros e os Neanderthais ainda estão entre nós, rejeitando a teoria da evolução de Darwin; um grupo de 46 deputados da maioria governamental quis proclamar Jesus Cristo "Rei da Polónia"; as cenas homossexuais televisas foram proíbidas, medida que por pouco não se estendeu aos desenhos animados "Teletubies", dado que um dos seus principais personagens, supostamente masculino, "transportava uma mala de mulher".

Durante o "reinado" dos gémeos, a Polónia foi um dos aliados mais fortes da política imperial de Bush, com uma empenhada participação na ocupação do Iraque e do Afeganistão, e no apoio incondicional aos planos americanos para a instalação de um escudo anti-mísseis no seu território. Em Junho deste ano o Conselho da Europa acusou a Polónia de albergar prisões secretas da CIA , entre 2003 e 2005, com detenção e tortura ilegal de "suspeitos de terrorismo".

O resultado das eleições de Outubro e a chegada de Donald Tusk ao poder foram sentidas como um alívio. Uma das primeiras medidas do novo Primeiro Ministro foi o anúncio da retirada das tropas polacas do Iraque. "Tomámos a decisão de que, em 2008, começará e terminará a retirada dos nossos soldados do Iraque", afirmou Donald Tusk, apoiado nesta decisão por 85% dos polacos.

Mas nem tudo são rosas. Por um lado, não desapareceram ainda os traços persecutórios e autoritários que marcaram o anterior governo. No dia 13 de Dezembro, a vice-ministra da Defesa,
Maria Wagrowska, foi obrigada a demitir-se pelo seu envolvimento com os serviços secretos durante o período comunista, apesar de terem sido alegados "motivos familiares". Donald Tusk teve acesso a documentos do Instituto da Memória que provavam o passado comunista da sua Ministra e não quis arriscar essa exposição pública.

Por outro lado, se houve algum alívio na vaga conservadora e moralista, reforçou-se com toda a sua ferocidade o espírito e a prática neoliberal, bem patente nas intenções do governo em privatizar o sistema de saúde e todos os sectores da economia polaca que ainda permanecem públicos.

 


 

 

 
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