Temores israelitas criar PDF versão para impressão
04-Dez-2007
Rui BorgesApós a cimeira de Annapolis o primeiro-ministro israelita Ehud Olmert lançou um importante aviso sobre aquilo que seria para Israel um cenário de catástrofe caso as actuais negociações com a Autoridade Palestiniana venham a falhar:

Se chegar o dia em que a solução dos dois estados colapsar, e nos depararmos com uma luta pelo direito ao voto [por parte dos palestinianos] como a que houve na África do Sul, então, assim que isso acontecer o estado de Israel está acabado.

E adiantando um pouco mais sobre essa possibilidade:

As organizações judaicas, que são a nossa base de poder na América, serão as primeiras a voltar-se contra nós, pois dirão que não podem apoiar um estado que não apoia a democracia e o direito de voto igual para todos os seus residentes.

Independentemente da força que esta proposta tenha actualmente nos territórios ocupados, a hipótese de uma viragem política em que os palestinianos exijam direitos de cidadania iguais aos dos judeus é um problema que há algum tempo preocupa as autoridades israelitas. E que deixa aos poucos transparecer que afinal a maior ameaça para Israel não é o Hamas, o Hezbolah, ou o Irão mas a democracia.

Isto só pode ser entendido se entendermos a função de Israel no Médio Oriente. O principal problema do Médio Oriente é o petróleo. Garantir o fluxo constante e abundante do ouro negro é um objectivo estratégico supremo dos governos ocidentais. Toda a política de região se reduz em última análise a esta questão. Foi aqui que o sionismo encontrou o seu ponto de apoio para promover o seu projecto colonizador nas terras do Médio Oriente. O estado de Israel desde sempre vendeu ao ocidente (primeiro a Inglaterra e agora aos Estados Unidos) a sua disponibilidade para patrulhar a região, lançar o caos, atacar e invadir sempre que esses interesses petrolíferos possam estar em causa. Tudo isto a troco de armas, financiamento e apoio diplomático para o seu projecto nacional.

É óbvio que um estado assim tem medo da democracia. Se Israel garantisse direitos políticos aos árabes que vivem em todos os territórios da Palestina ocupada, um governo representativo nunca teria capacidade para patrulhar os outros estados árabes da região. Se Israel deixasse de cumprir a sua função de patrulhar e destabilizar a região tornar-se-ia inútil para a Casa Branca e não haveria qualquer razão para que os Estados Unidos continuassem a canalizar milhares de milhões de dólares para o país todos os anos. E isso seria o fim do apartheid sionista.

Por isso nos meios políticos israelitas vão surgindo as chamadas de atenção para a urgência de um acordo que estabeleça definitivamente os dois estados na Palestina. Entretanto a demografia tornou-se uma ciência incontornável. Em Israel, políticos responsáveis discutem com elevado sentido de estado a limpeza étnica que estabeleça de forma mais clara a fronteira entre os dois estados. É que já em 2010 os árabes em Israel, Gaza e Cisjordânia serão a maioria da população. Se eles se lembram de querer votar...

Rui Borges

 
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