África: intervenção no Parlamento Euro-africano criar PDF versão para impressão
07-Dez-2007
Miguel PortasNão vale a pena estar com diplomacias.
A agenda desta cimeira é a das prioridades europeias e não a dos problemas de África.
As urgências da Europa são as quotas de mercado, o controlo da imigração sem papéis e a disputa de influência estratégica no continente africano.

Hoje de manhã, na sala do Senado da Assembleia da República, realiza-se uma sessão conjunta e solene do Parlamento Europeu e do Parlamento pan-africano. Nem um nem outro tiveram qualquer papel na preparação da cimeira entre chefes de Estado e querem passar a tê-lo - será essa a conclusão comum. A ala esquerda europeia estará representada por Luísa Morgantini, de Itália, e por mim mesmo. No minuto e meio, eis o que tenciono dizer:

"Não vale a pena estar com diplomacias.

A agenda desta cimeira é a das prioridades europeias e não a dos problemas de África.

As urgências da Europa são as quotas de mercado, o controlo da imigração sem papéis e a disputa de influência estratégica no continente africano.

Queremos os Acordos de Parceria Económica porque eles são bons para as nossas empresas. Mas não servem o Desenvolvimento sustentável do vosso continente. Apesar disso, parte dos vossos governos acabou por os aceitar.

A Europa quer também que a imigração sem papéis não chegue ao Mediterrâneo. O que propõe aos governos do Norte de África é um verdadeiro outsorcing fronteiriço, inaceitável na óptica dos Direitos Humanos. Mas há, entre vós, quem prefira discutir o preço.

A prioridade da Europa é, finalmente, a disputa áreas de influência às potências emergentes. Dá-se a esse velho hábito um novo nome: good governance. Por mim, sugiro que só discutamos good governance no dia em que as companhias forem obrigadas a revelar quanto e a quem pagaram por fora, para obterem concessões de exploração.

Enquanto esse dia não chegar, os dramas de África continuarão a passar pela fome, a doença, o subdesenvolvimento e os conflitos herdados de mapas coloniais traçados a regra e esquadro. É por isso que quando se aponta o dedo a Mugabe, a árvore oculta a floresta. O combate é pelos Direitos Humanos. Todos, e nada menos do que isso."

Miguel Portas, publicado no blogue Sem Muros

 
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