Kosovo: um puzzle sem lugar para todas as peças criar PDF versão para impressão
07-Dez-2007

carla_luis.jpg Alguém dizia que é muito ténue a linha que separa um herói de um criminoso de guerra. Alguém que participa num conflito não sabe como depois o vão encarar.

Muitas vezes, no entanto, essa fina separação não cabe sequer, à qualificação das acções que cada um levou a cabo. Decide-se depois, em jogos políticos, geoestratégicos e fica estabelecido, sem mais contestações.

Podia aplicar esta distinção a tantas situações internacionais, mas escolho uma, bem perto de nós: a questão do Kosovo e ao partido óbvio que a comunidade internacional tomou contra a Sérvia e a favor dos albaneses.

A questão não é simples, o conflito em si muito menos. Até hoje há circunstâncias e factos por apurar em toda a situação. Quando estive no Kosovo, um nome era apontado como o descalabro de tudo: Slobodan Milosevic. Não se saberá.

Sabemos, grosso modo, que sérvios e albaneses estiveram em conflito étnico. Que os sérvios eram uma minoria, que os albaneses sofreram constantes abusos por parte da polícia e depois do exército regular. O conflito acendeu-se. Chegavam notícias de violações, massacres, mortes escolhidas com o único critério da etnia. Falou-se em genocídio, o primeiro passo para uma condenação internacional.

Essa condenação veio e a Sérvia foi bombardeada. Quando estive na Sérvia, há um ano atrás, essas marcas eram ainda visíveis: pilares de uma ponte que não iam a lado nenhum. Mas que aconteceu quando os sérvios foram vencidos no Kosovo?

Esta é a parte da história de que pouco se fala, de que a maioria prefere não falar.

Quando os sérvios foram derrotados, os albaneses tomaram conta da província. Foi a revanche: houve massacres, perseguições, cemitérios profanados, casas queimadas. Os sérvios abandonaram a província em massa e até hoje poucos voltaram.

Mas no Kosovo não havia só sérvios nem albaneses. Havia Romas (vulgo ciganos), Askali, Turcos, Bosniaks e outras minorias. Que lhes aconteceu?

Podia esperar-se que, após anos de opressão, os albaneses tivessem aprendido quão importante é preservar os direitos das minorias. Em vez disso, presumiram que as minorias sobreviventes tinham sido colaboracionistas com o regime sérvio. E houve novamente perseguições, expulsões, casas queimadas e refugiados.

Mas a comunidade internacional tinha escolhido por quem tomar partido. Por muito que fizesse, o regime kosovar albanês teria a complacência internacional - o mesmo já não se passando com o regime sérvio. E é incrível que mesmo actualmente haja minorias étnicas a viver em campos contaminados no Kosovo, sem que nenhuma organização internacional pareça fazer nada para o evitar. Mas como estas têm imunidade...

O que é certo é que os albaneses crêem ter a legitimidade de quem lutou uma luta de independência - o que não foi o caso. Lutaram, sim, por uma igualdade de direitos, por verem os seus direitos respeitados. Mas não pela independência. Mas ao longo destes anos nunca ninguém parece ter tido vontade de lhes explicar isso.

A situação, agora, parece caminhar para um abismo sem retorno.

Se os albaneses auto-declararem a independência, que será dos sérvios kosovares? Que será das outras minorias no Kosovo? Será que a intervenção internacional teve por fim dar a independência à província, e sem sequer garantir que respeitem os direitos das minorias presentes no território? O problema é complicado e não parece ter solução fácil.

Voltando à pergunta de partida, sim é ténue a linha entre um criminoso e um herói de guerra. Na dúvida, se calhar o melhor é não tomar partido - e tentar, por uma vez, a imparcialidade.

Carla Luís

 
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