Duzentos metros entre o poder e o povo criar PDF versão para impressão
11-Dez-2007
João RomãoDois eventos internacionais recentemente realizados em Lisboa evidenciaram a crescente dualidade os universos dos decisores políticos e dos povos, com os seus problemas, dinâmicas e agendas próprias, filtradas para a opinião pública global pelas agendas das principais agências informativas mundiais.

O primeiro exemplo foi o da conferência intergovernamental europeia, onde os governos da UE chegaram a acordo sobre o tratado constitucional que pretendem implementar sem referendo. Dentro do Pavilhão Atlântico estiveram os governantes europeus e a imprensa. Do lado de fora estiveram duzentas mil pessoas a contestar o modelo social que a Europa vai destruindo após séculos de conquistas populares.

Há poucas semelhanças entre as prioridades dos governantes que se encontraram dentro do Pavilhão e dos movimentos sociais que se manifestaram na rua. Mas a ténue fronteira de 200 metros que os separava foi suficiente para que os primeiros ocupassem a agenda informativa e os segundos permanecessem num canto obscuro dos noticiários internacionais.

Se na imprensa ainda houve algumas referências à grande manifestação convocada pela CGTP, a nível internacional pouco se soube desse protesto: circularam algumas notícias entre os orgãos de informação mais vinculados a organizações de activistas, mas o assunto passou ao lado das agendas informativas dos orgãos de informação "de referência".

A  situação repete-se com a cimeira UE - África, mais uma vez no Parque das Nações. Nos pavilhões da FIL instalaram-se os governantes europeus e africanos, para discutir uma agenda centrada nos problemas da Europa, na abertura dos mercados africanos às empresas europeias e no controle da imigração do continente africano para o europeu.

Ao mesmo tempo, um pouco por toda a cidade de Lisboa, multiplicam-se iniciativas políticas e culturais que chamam a atenção para outros problemas, outras prioridades e outras agendas para a intervenção política.

Sobre isso pouco se sabe na imprensa global: mais uma vez, a fronteira de 200 metros entre os governantes reunidos e os actores sociais que se mobilizaram para discutir alternativas é suficiente para reduzir os acontecimentos à agenda oficial da cimeira. O protagonismo africano foi reduzido à polémica sobre a participação de Mugabe e à tenda onde se instalou a comitiva de Khadaffy.

Pouco ou nada sobra para as agendas, os debates e as propostas discutidas em vários pontos de Lisboa, por dezenas de organizações portuguesas, africanas ou internacionais. Dessa agenda, a imprensa regista, de forma quase folclórica, as cores e o ritmo dos espectáculos de rua inspirados na cultura africana. É o colorido que falta à agenda cinzenta e tecnocrática que marca a reunião dos governantes. Das ideias e propostas para um desenvolvimento solidário e sustentável dos dois continentes pouco ou nada se transmite para a opinião pública internacional.

João Romão

 
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