Os descamisados criar PDF versão para impressão
11-Dez-2007
Alice Brito ... na construção do conceito de "descamisados" cabe muito mais do que a substância da pobreza. Os sem camisa são também todos aqueles que de forma cega mandataram alguém para que os representasse... Foi assim que a direita portuguesa, pela voz autorizada de um dos seus arautos, classificou os advogados que votaram no novo Bastonário.

Algures na década de 40, na magnífica cidade de Buenos Aires, uma multidão incendiada aguardava expectante, na Plaza de Mayo, o discurso de Perón.

O calor calcinava os corpos suados e um mar de homens, face à temperatura insuportável, tirou a camisa movendo-se em tronco nú.

Eva Perón, das janelas amplas da Casa Cor-de-rosa, com cirúrgica precisão, dirigiu-se aos manifestantes chamando-lhe "descamisados".

Assim ficaram conhecidos os pobres, os miseráveis, todos aqueles que num trágico equívoco histórico, tropeçaram e confiaram em Perón, o General que ficaria conhecido como o "Führer das Pampas".

Mas na construção do conceito de "descamisados" cabe muito mais do que a substância da pobreza. Os sem camisa são também todos aqueles que de forma cega mandataram alguém para que os representasse, assumindo-se menores, como plebe sem direitos, sem a consciência da sua força intrínseca, marchando ao som do discurso de improváveis promessas de melhores dias.

Foi assim que a direita portuguesa, pela voz autorizada de um dos seus arautos, classificou os advogados que votaram no novo Bastonário.

Esta Direita Portuguesa nunca aprendeu verdadeiramente as regras básicas da democracia. É aliás nessa área, e em muitas outras, portadora de um verdadeiro insucesso escolar. Medrosa face à mudança que intui ser-lhe desfavorável, põe o dedo no gatilho disparando cega em todas as direcções quando os ventos não sopram a favor enfunando-lhe as velas. Faz-lhe falta a tepidez e o conforto que a repressão cúmplice do anterior regime lhe emprestava. Faz-lhe falta o ritual da obediência e o discurso alinhado com o poder. Não prescinde dos cargos que lhe conferem visibilidade, pompa e circunstância. Ficou-lhe a arrogância como cicatriz de tempos áureos de conluios e harmonias construídas no privilégio, no silêncio, na engrenagem que ia trabalhando calamitosa para a maioria, mas funcionante e mecânica para uma minoria que se planeava como eterna.

Metendo-se como piolho por costura aí aparece ela, a Direita Portuguesa em tudo o que é negócio, em tudo o que confere força e autoridade, entricheirada na ética que ela própria edificou e teceu à sua medida, geometricamente plutocrática e excludente.

Os insultos de José Miguel Júdice ao novo Bastonário, a sua falta de respeito pelo resultado de uma eleição absolutamente democrática, a altivez quase patética com que olha para a maior parte dos habitantes deste território complexo que é a advocacia portuguesa, são a prova provada desta incapacidade da Direita, para respirar no Estado de Direito.

Contra Júdice tinha já sido instaurado um processo pela Ordem dos Advogados, por este ter afirmado que o Estado deveria consultar as três maiores sociedades de advogadas quando necessitasse de pareceres; nas três sociedades eleitas incluía-se obviamente aquela de que ele próprio é sócio.

Estatutariamente tinha 30 minutos para alegações de defesa. Afirmou que falaria o tempo que entendesse não admitindo limites.

Júdice e a direita em que geneticamente se inscreve, não gostam pois de limites, sejam eles estatutários ou fruto do exercício da democracia.

Por isso apelida o novo Bastonário de "Mussolini" antevendo a desgraça da Ordem num mandato que ainda se não iniciou.

Na estridência do discurso ouve-se o eco do piar de vozes antigas.

Alice Brito

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.