África é dos africanos? criar PDF versão para impressão
12-Dez-2007
João DelgadoÉ impensável que algum europeu, assumindo-se como "de esquerda", proclame que a Europa é dos europeus. No entanto, presos à memória complexada da escravatura e da colonização, não raro ouvimos que "África é dos africanos" e que caberá exclusivamente àqueles decidir do seu destino.

Para a esquerda europeia ficaria a responsabilidade de defender justo tratamento e integração dos africanos, que diariamente abordam o velho continente (designação bem eurocêntrica, por acaso), fugidos da guerra e da fome.

No entanto, deixar que "os africanos" decidam do seu destino significa deixar que Mugabe e José Eduardo dos Santos, ou os senhores da guerra na Somália ou no Sudão, decidam quem vive e quem morre, em nome dos negócios das armas e da pilhagem dos recursos naturais, que enriquecem gente um pouco por todo o mundo, excepto os seus legítimos proprietários, o povo africano.

É também costume muita esquerda ficar perplexo-paralizada quando eclode um conflito em África, procurando perceber de que lado está a razão e o progresso. Enquanto a situação não se esclarece, acontecem tragédias como no Ruanda, em que foi necessária a intervenção de Hollywood para que muitos progressistas abrissem a boca de espanto e se perguntassem onde estavam quando um milhão de seres humanos eram selvaticamente assassinados, sem que os seus gritos se ouvissem em grande parte das sedes da esquerda europeia.

Não, África não é dos africanos, defender tal absurdo é condenar todo um povo a uma vida de fome e miséria, de fuga à guerra e à doença, que em África não mói, mata mesmo. África é nossa, tem que ser nossa, de todos quantos acreditam na tal possibilidade de um outro mundo, e que lutam por isso neste mundo real e não em proclamações retóricas que nada solucionam e apenas servem para aliviar consciências. Debater África e os seus problemas e contradições, ajudar os africanos à emancipação, não apenas do neo-colonialismo mas também, talvez principalmente, dos seus demónios internos, é o que muitos de nós, nascidos em África e atirados por esse mundo fora, esperamos dos europeus de quem somos camaradas e amigos, mas de quem esperamos um dia despedir-nos de regresso à terra natal, finalmente em paz.

E que ninguém se esqueça da solidariedade internacionalista quando, findas a cimeira e a contra-cimeira, os déspotas entrarem nos seus jactos de regresso às minas, de onde extrairão mais uns milhões para ajudar a manter o nosso estilo de vida e os nossos governantes democratas.

João Delgado

 
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