A Austrália vence em Timor criar PDF versão para impressão
18-Dez-2007
Xanana Gusmão e Ramos Horta trocaram de cadeirasEm Timor, 2007 foi o ano da "consolidação democrática" do golpe de Estado iniciado em 2006 com a conivência da Austrália e contra o "nacionalismo económico" de Mário Alkatiri. Ramos Horta e Xanana Gusmão, os principais aliados da política australiana, conquistaram os lugares de Presidente da República e Primeiro-Ministro. Horta venceu as eleições claramente impondo a primeira derrota nas urnas à Fretilin. A 30 de Junho, Xanana não precisou de ganhar as legislativas para mesmo assim se sentar na cadeira do poder. Entretanto, o criminoso Alfredo Reinado continua a monte, recebendo salário do Estado.  

A crise de 2006 teve o seu desfecho nas urnas no ano que agora passou. Um desfecho favorável às forças que promoveram a instabilidade em Timor quando Alkatiri se recusou a concessionar mais petróleo para empresas australianas. Ainda em 2006 Alkatiri foi obrigado a demitir-se e Ramos Horta, ministro dos negócios estrangeiros, ascendeu ao cargo de Primeiro Ministro.

Em 2007 realizaram-se eleições presidencias e legislativas, que "curiosamente" resultaram numa troca de lugares. Ramos Horta passou de Primeiro Ministro a Presidente e Xanana Gusmão de Presidente a Primeiro Ministro.

Na primeira volta das eleições presidenciais, a 9 de Abril, o candidato da Fretilin foi o mais votado. Francisco Guterres - "Lu-Olo" - obteve 28% dos votos, seguido de Ramos Horta com 22% e Fernando Lasama com 19%. Na segunda volta, todos os candidatos, menos um, se uniram para apoiar Ramos Horta, que conquistou a cadeira de Presidente da República, a 8 de Maio, com 73% dos votos. Foi a primeira derrota eleitoral da Fretilin, que não resistiu tanto às inabilidades governativas e à incapacidade de promover uma cultura de participação popular, como à campanha de medo em que os seus adversários se empenharam, augurando o regresso dos distúrbios e dos confrontos no caso de uma vitória do candidato da Fretilin.

Algo que se repetiu nas eleições seguintes, as legislativas de 30 de Junho. A Fretilin voltou a ser o partido mais votado, com 29%. Uma descida vertiginosa em relação às anteriores eleições para o parlamento, em que conquistara a maioria absoluta com 57 % dos votos. Mesmo assim, Xanana Gusmão não conseguiu capitalizar o seu carisma, ficando com apenas 24% dos votos, o que não deixa de ser sintomático: o homem que foi a cara e também o corpo da luta pela independência de Timor, eleito esmagadoramente Presidente da República há cinco anos atrás, não obteve mais do que um em cada quatro votos.

Mas foi o suficiente. Rapidamente se formou uma coligação negativa, anti-Fretilin, para impedir que o partido mais votado estivesse presente no governo. O novo parlamento de Timor Leste ficou composto por 21 deputados da Fretilin, 18 do Conselho Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT), 11 da coligação ASDT-PSD (Mário Carrascalão), 8 do Partido Democrático, 3 do Partido da Unidade Nacional (PUN), 2 da aliança KOTA-PPT e 2 da Unidade Nacional da Resistência Timorense (Undertim). Após as eleições, o CNRT, a coligação ASDT-PSD e o PD fizeram um acordo pós-eleitoral, constituindo a Aliança com Maioria Parlamentar (AMP), com 37 deputados no total contra 21 da Fretilin. A AMP elegeu para presidente do parlamento Fernando Araújo (PD) com 41 votos em 65 deputados. Pouco depois, Ramos Horta colocou no poder a mesma aliança parlamentar, encabeçada por Xanana Gusmão, que ocupou o lugar de Primeiro Ministro.

Um dos grandes desafios do novo governo é a resolução do problema dos refugiados, que desde a crise de 2006 permanecem em condições muito difíceis. Segundo diversas agências humanitárias existem, só em Dili, 53 campos de refugiados com um total de 30 mil pessoas, um quinto da população da capital. No país todos, calcula-se que haja 100 mil deslocados (10% da população).

Finn Reske-Nielsen, responsável pelos assuntos humanitários na missão internacional (UNMIT), afirmou que "não existe uma solução de curto prazo para o problema dos deslocados". Esta é uma questão bem presente nas promessas do Governo, mas até agora quase nada foi feito.

Entretanto, o novo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, já fez saber que o seu país manterá tropas em Timor-Leste pelo menos até o fim de 2008.

Do ponto de vista da agitação social, destaque para as manifestações de estudantes contra a lei da "pensão vitalícia" que os deputados da anterior legislatura, num parlamento totalmente dominado pela Fretilin, atribuíram a si próprios.

Finalmente, o personagem que promete dar que falar em 2008: Alfredo Reinado.

Ex-chefe da Polícia Militar, Reinado esteve no centro da crise de 2006, liderando os principais levantamentos contra o governo da Fretilin. Contou sempre com a protecção das tropas da Austrália, país em que se formou militarmente. Conspirou com Xanana Gusmão, e é acusado de vários crimes de homicídio, de rebelião e de posse ilegal de material de guerra. Ao contrário de Alkatiri, que foi acusado de apoiar o célebre "grupo de Railós" para eliminar opositores - apesar de não ter existido nenhuma acção concreta deste grupo e as provas se resumirem à posse de seis espingardas - Xanana Gusmão não foi tocado pelo poder judicial.

Reinado começou a ser julgado a 3 de Dezembro, mas o julgamento foi adiado para 24 de Janeiro de 2008, porque o principal arguido continua a monte desde que se evadiu confortavelmente da prisão de Becora, em Díli, a 30 de Agosto de 2006. Ainda assim, Xanana Gusmão faz questão de marcar encontros com Reinado mas este nunca apareceu. A última tentativa gorada foi a 16 de Dezembro. Depois de esperar mais de três horas por quem nunca teve a intenção de aparecer, eis alguns dos desabafos de Xanana Gusmão:

"Alfredo Reinado esquivou-se do encontro". "Ele pensa que é um herói e que manda em Timor". "Dou apenas mais uma oportunidade a Alfredo Reinado" essa oportunidade "será a curto prazo". "Não falo de esperança". "Eu não faço convites. Só para festas". "Conheço Alfredo Reinado. Foi várias vezes a minha casa antes de ser preso em Becora". "Alfredo é um homem que não mantém a sua palavra. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra".

Na verdade, Reinado faltou a vários encontros, mas foi capaz de nomear um representante legal para vir ao gabinete de um ministério do governo receber o salário em seu nome. Torna-se assim no único fugitivo do mundo que, continuando a monte, recebe o pagamento do salário pelo Estado de cujas forças armadas desertou, tendo feito tudo para derrubar esse mesmo Estado, inclusivamente recorrendo ao assassínio.

 
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