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29-Jun-2006


Miguel Portas

A memória é danada

O taxista não gostava de padres. A culpa nem foi deles, mas de uma tia beata lá para os lados de Gouveia. Miúdo e órfão, o velhote teve infância atribulada, entre confissões, castigos e terços enraivecidos. Mal pôde, pisgou-se para a cidade. A sua terra sabe-lhe a sotaina e é quanto lhe basta para nunca mais lá ter posto os pés. Isto contava ele enquanto a rádio debitava as primeiras informações do dia chegadas de Timor. Continuava o pandemónio e a mulher de Xanana atirava-se ao governo. Um excelente pretexto para que o meu condutor juntasse à culpa dos padres a nacionalidade da senhora.

Quando o rádio passou para o capítulo do futebol, ainda o lugar da frente rosnava. Agora com o povo de lá, e também com o de cá, que "quase chorou por aquela gente, para agora acabar nisto". Os padres, pois. E os australianos. E o petróleo. E a miséria. E ainda a interrogação: "o que vão para lá fazer os gêéneérres"? As manhãs mal dispostas devem ser um petisco naquele táxi. Eu é que estava mal dormido e dispensava a coisa. Bem como as más notícias.

Descontado o tom, a irritante criatura dizia coisas com nexo. Pelo meu cansaço passaram imagens da semana louca em que tomámos as ruas em solidariedade com os timorenses. Lembro-me de passar um megafone vermelho ao bispo para ele se fazer ouvir. E da religiosidade pagã que desenhou no chão da praça da liberdade um altar de velas. E das tensões que emergiam ao fim de alguns dias de ocupação da praça. Esperanças tão contraditórias quanto genuínas chegavam a Portugal pela luta de um povo que escolhera a independência. E agora...

... Agora é essa memória que nos leva de novo a GNR para Timor. Apenas essa memória. Chegará ela? É duvidoso. A ONU não foi verdadeiramente a jogo. Enviou uma carta de conforto para quem fosse, depois de de lá ter saído bem antes de tempo e por pressão dos que preferiam "soluções bilaterais". Em Bruxelas vêm diminuindo os apoios, enquanto em Estrasburgo a direita opera no sentido de favorecer um dos lados do conflito. A verdade é que o poder real se encontra na ponta das armas dos dois mil militares australianos que, como se encarregou de explicar o seu primeiro ministro, têm uma leitura muito própria do que possa significar "restabelecer a ordem".

Por causa da memória, um contingente partiu. Que ela o traga de volta quanto antes. Sem sangue na consciência, nem de calças nas mãos. Também isso a memória recomenda.

 
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