Dois passos cruciais contra o vírus da SIDA criar PDF versão para impressão
21-Dez-2007
Vírus HIV em pleno ataque a glóbulos brancosEm Fevereiro e Abril de 2007 foram publicados dois estudos que trazem novas esperanças no combate ao vírus da SIDA. Ambas as descobertas, uma publicada na revista Nature e a outra na revista Cell, centram-se na identificação de proteínas, presentes no sangue humano, capazes de bloquear a ligação do HIV às células do sistema imunitário, em vez das investigações mais clássicas que apenas incidiam na inibição da replicação do vírus, e a partir de substâncias não originárias do sangue humano. Artigo no dossier Balanço Internacional 2007  

A permanente mutabilidade do vírus da Sida explica a dificuldade de encontrar uma vacina para uma doença que já infectou cerca de 1% da população mundial. O HIV-1, que está na origem da sida, é um vírus cheio de truques, capaz de mutações rápidas e subtis que lhe permitem iludir constantemente o sistema imunitário (e aproveitar-se dele) e andar sempre um passo à frente dos médicos e investigadores. Neste momento a maior parte dos retro-virais existentes inibem a reprodução do vírus, mas não impedem a sua entrada nas células imunitárias. Na verdade, apenas diminuem o ritmo da destruição mas não a impedem.

Ora, os novos estudos têm-se centrado precisamente na tentativa de encontrar mecanismos que impeçam a entrada do vírus nas células do sistema imunitário. Ou seja, em vez de controlar a reprodução do vírus quando este já infectou um glóbulo branco, o que se pretende é actuar anteriormente, no momento em que o vírus ainda não teve tempo de se introduzir totalmente nas células imunitárias. Ora, dada a mutabilidade do HIV, a dificuldade consiste precisamente em identificar as suas partes estáveis que são essenciais para a ligação "fatal" com as células imunitárias.

O HIV defende-se através de uma membrana protectora em torno do seu material genético, como se fosse um colete à prova de bala. Mas, para infectar uma célula, necessita de múltiplos braços, saliências que têm na base a glicoproteína 41 (gp 41) e na ponta a glcoproteína 120 (gp120). Estas saliências, constituídas pela gp41 e pela gp120, são a arma que o vírus possui para se agarrar aos receptores das células imunitárias, designados por proteínas CD4. Primeiro, a extremidade destas saliências (a gp120) liga-se ao receptor CD4, logo de seguida, a gp120, precisamente porque não forma uma relação estável com o receptor da célula imunitária, deforma-se e abre caminho à entrada da parte mais interior da saliência, ou seja, da gp 41, consumando-se a infecção. O problema em evitar esta ligação consistia em encontrar os locais exactos dos braços do vírus que encaixavam nas células imunitárias, aparentemente escondidos e só revelados depois do contacto. É precisamente nesta busca que se centram os dois estudos divulgados em 2007.

Desde 1998 que se conhece a estrutura deste braço, nomeadamente da sua parte terminal, a gp120. No entanto, só se conhecia a estrutura quando esta já estava agarrada à célula imunitária. Ou seja, não se conhecia como era essa "chave" fora da "fechadura", tornando impossível evitar o encaixe.

Um grupo de investigadores do National Institute of Health (NIH - EUA), num estudo publicado na revista Nature, diz ter identificado o calcanhar de Aquiles do vírus. Ou seja, encontraram precisamente o local do braço do vírus que encaixa na célula imunitária, antes do encaixe se consumar.

E, melhor ainda, encontraram uma proteína (B12), que está presente no sangue humano, que encaixa perfeitamente na gp120, formando com ela uma relação estável. Ou seja, ao contrário das interacções gp120-CD4, o anticorpo B12 consegue um primeiro contacto com a gp120, sem a necessidade de alteração da conformação desta glicoproteína, conseguindo formar uma ligação estável entre as duas moléculas. Ao fixar-se à molécula viral, o anticorpo impede-a de entrar na célula imunitária, mais ou menos como uma pastilha elástica colada na ponta de uma chave a impediria de entrar numa fechadura.

A equipa liderada por Peter Kwong, do NIH, percebeu como o anticorpo B12, que existe no sangue de pessoas que resistem durante mais tempo ao HIV, se liga à molécula viral gp 120 para assim impedir o vírus de se encaixar no receptor CD4, a sua porta de entrada nas células imunitárias.

"Esta é sem dúvida uma das melhores pistas [para o desenvolvimentos de vacinas contra o HIV] dos últimos anos", disse Gary Nabel, um dos elementos da equipa. E acrescentou: "Um dos nossos primeiros objectivos é desenvolver vacinas contra o HIV que poderiam estimular os anticorpos neutralizantes".

Por outro lado, um estudo de investigadores da Universidade Alemã de Ulm, publicado na revista Cell, encontrou outra proteína presente no sangue dos próprios infectados, que também consegue bloquear o contacto do vírus com as células imunitárias, embora numa fase posterior. As conclusões deste estudo entrarão em fase de teste e espera-se que só dentro de alguns anos possa permitir o desenvolvimento de um novo fármaco.

Trata-se de uma pequena parte de uma proteína, designada por "VIRIP" e igualmente presente no sangue das pessoas infectadas que resistem durante mais tempo, que consegue ligar-se à parte mais interior do braço do vírus, ou seja, à gp41, numa altura em que a gp120 já iniciou a ligação à célula imunitária. Na verdade, um dos mais recentes medicamentos contra o HIV - comercialmente conhecido por "Fuzeon" - já funciona desta forma, embora ataque a gp41 num local diferente, acreditando-se que não será tão eficaz quanto a cadeia de aminoácidos VIRIP.

Estas duas descobertas têm outra inegável vantagem. Ao utilizarem proteínas presentes no sangue humano, supõe-se que os efeitos secundários sejam muito menos agressivos do que os causados pelos retrovirais que se usam actualmente. A comunidade científica acredita que, a ser encontrada uma cura ou vacina para a SIDA, na respectiva bibliografia constarão estes estudos.

 
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