"The final countdown", por José Manuel Pureza criar PDF versão para impressão
29-Dez-2007
BushEste foi o ano de um doloroso countdown na política norte-americana. Em perda crescente, o conservadorismo bushista exibe um estilo de fim-de-festa. A erosão política do grupo que rodeia George Bush foi de uma intensidade letal durante o ano que passou. O abandono do seu conselheiro político principal, Karl Rove, foi porventura o símbolo maior dessa desagregação do bushismo.
Artigo de José Manuel Pureza

O escândalo provocado pela decisão presidencial de comutação da pena a que havia sido condenado Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente Cheney por perjúrio, mais acentuou a débacle desta Administração aos olhos dos americanos.

Este foi também o ano do afundamento do atoleiro iraquiano. A prometida nova estratégia foi, como se sabia, coisa nenhuma. Bloqueados todos os canais de diálogo diplomático com interlocutores decisivos para a guerra (como a Síria ou o Irão), nada mais resta do que a contagem decrescente para a retirada e a sua execução sem grande aparato. Sintomaticamente, em Março passado, o Congresso adoptou uma decisão no sentido de que, a partir de Setembro de 2008, só os custos de retirada das tropas serão financiáveis... No terreno, o fracasso militar e político continua patente. E nem a momentânea acalmia das forças de Moqtada Al-Sadr disfarça o beco sem saída. Pelo meio, os planos de guerra contra o Irão ficaram seriamente hipotecados. O relatório das agências de espionagem norte-americanas foi um duche frio na espiral de dramatismo retórico que a Casa Branca vinha animando. Não será, pois, nem do Iraque nem do Irão que virá o prometido redesenho do puzzle do Médio Oriente. E daí também o sentido de Annapolis. Um presidente fraco e desacreditado na região junta dois presidentes fracos e desacreditados junto dos seus povos. A fraqueza não gerará força, certamente. Ficará somente o perfume do gesto, o alegado início de um "processo" - que, de trajectória para um fim se torna cada vez mais em fim em si mesmo. A divisão da Palestina e o apoio continuado à prepotência israelita são imagens de marca do posicionamento estratégico da administração Bush no Médio Oriente. Será esse o seu maior legado e não a cosmética benigna de Annapolis.

Este foi, enfim, o ano da evidenciação dos limites da alternativa democrática. A obsessão da moderação centrista aumenta à medida que se aproxima 4 de Novembro de 2008. Está fora de causa qualquer radicalização das diferenças de política externa relativamente aos republicanos. Na adopção da guerra como instrumento de afirmação hegemónica, na centralidade conferida aos cânones ideológicos da Organização Mundial do Comércio ou nas políticas concretas de relacionamento com a dissidência sul-americana, as vozes do Partido Democrático pautam-se por tons demasiadamente próximos dos da Casa Branca. E nem mesmo a dessintonia no domínio ambiental - de que a prestação de Gore na cimeira de Bali foi expressão - apaga essa noção de proximidade política.

2007 foi tudo isto. Mas foi também a continuação da falta de uma alternativa contra-hegemónica global, capaz de disputar o tom e o conteúdo das políticas de governação do mundo.

José Manuel Pureza

 
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