A política dos palácios criar PDF versão para impressão
20-Dez-2007
João Teixeira LopesOs rituais colocam o mito em acção, disse Georges Gusdorf. Ora, Sócrates e Cavaco, segundo nos afirmam pelas suas excelentíssimas bocas, não praticam cordialidades, simpatias, elogios e dádivas mútuas como um mero ritual natalício. Natal é todos os dias na vida daqueles senhores. Não há mito - há apenas factos.

Sócrates e Cavaco cumprimentam-se todos os dias quando o desemprego sobe e os salários reais descem; abraçam-se pela vulnerabilidade social crescente, pela divergência gritante face à União Europeia, pelo escorregadio poder de compra; trocam sorrisos pelas privatizações, pelo desbaratar dos bens e serviços públicos, pela desprotecção social; exercem cumplicidades no desmantelar da qualidade da democracia, na revisão das leis eleitorais, a ignomínia e batoteira forma de ganhar na secretaria o que não se consegue nas urnas; galhofam quando o Bloco Central troca os favores do costume nos cargos milionários das empresas públicas e do Banco de Portugal, enrolando-se na ancestral teia de interesses e «parcerias»; abanam com a cabeça em sintonia com a covarde política externa portuguesa que não abre a boca para defender os Direitos Humanos na China, em Marrocos ou em Angola e que alinha no diapasão guerreiro dos Estados Unidos e na medíocre incapacidade de condenar Israel e o seu terrorismo de Estado.

Ambos sobranceiros e absolutos, irascíveis e inimigos da crítica, liberais e financeiros.

Há um país a estiolar e nos palácios reina o melhor dos mundos. Nada de cerimónias ou protocolos. Eles entendem-se. A bem de uma certa, particular e diminuta «Nação».

João Teixeira Lopes

 
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