A Europa por trás da cortina de fel criar PDF versão para impressão
21-Dez-2007
Luís BrancoPodemos perguntar porque é que o PCP, quando o Tratado é assinado e quando o bloco central faz a sua propaganda liberal, se atira contra a esquerda e procura criar sectarismo na base da mentira. A resposta é que a direcção do PCP é assim mesmo.
É fatal como o destino e acontece sempre à quinta-feira, dia do PCP anunciar "a genuína rendição aos valores da integração capitalista" por parte do Bloco de Esquerda. Os profetas revezam-se semanalmente nas páginas do Avante, mas faça-se a justiça de dizer que Jorge Cordeiro é o mais diligente a alertar os fiéis para a verdade a que têm direito.

O PCP converteu-se às virtudes da consulta referendária e revê todos os argumentos que foi repetindo nos últimos anos para evitar a consulta aos portugueses sobre a despenalização do aborto. É uma mudança importante que todos os democratas devem saudar, e mostra que os quadros do partido podem aprender com os erros do passado não muito distante, quando votaram ao lado da extrema-direita pró-prisão na Assembleia da República para impedir a escolha popular.

Mas se o ímpeto referendário do PCP é bem-vindo, não se compreende tão bem a ânsia em atirar areia para os olhos dos cidadãos - como fez Jerónimo de Sousa no fim de semana, secundado por Cordeiro à quinta - e procurar deslocar o Bloco da posição que sempre afirmou e que é naturalmente contrária a este Tratado e às ideias e objectivos que o inspiram.

O que Jerónimo de Sousa afirmou foi que o Bloco não tinha posição definida sobre o novo Tratado, e que, não sendo não nem sim, parecia mais um "nim". Jerónimo gosta de levantar uma assobiadela contra o Bloco nos comícios do PCP, mas devia saber que utilizava a mentira como arma política. O Bloco nunca deixou nenhuma dúvida: defende o Referendo e votará contra o Tratado, porque este é a afirmação de uma política liberal que destrói os direitos sociais na Europa.

Podemos por isso perguntar porque é que o PCP, quando o Tratado é assinado e quando o bloco central faz a sua propaganda liberal, se atira contra a esquerda e procura criar sectarismo na base da mentira. A resposta é que a direcção do PCP é assim mesmo.

Acresce ainda que há de facto divergências importantes entre o PCP e o Bloco nas questões europeias - mas não são sobre o voto do Tratado. Na sua vertigem nacionalista, o PCP veio agora defender que Portugal deve sair do euro. Não se deu ao trabalho de explicar como tal seria feito nem muito menos as consequências económicas e sociais. Afinal, a política do PCP faz-se com muita agitação mas com pouco estudo e nenhuma profundidade.

A política anti-europeia do PCP não é de hoje e ao contrário do que agora dizem os seus dirigentes, ela é mais funda que a retórica da "luta contra a Europa do grande capital".

Na verdade, é a mesma que tem impedido a unidade nas lutas dos trabalhadores à escala europeia e o aprofundamento da ligação da CGTP às suas congéneres da UE. E é a mesma que está na origem da recusa da participação em actividades de coordenações das esquerdas europeias, onde o Bloco participa como membro de pleno direito. E é aí que o Bloco, junto com as restantes forças da esquerda, sem sectarismos nem exclusões, desenvolve as alternativas para enfrentar a crise do projecto neo-liberal europeu, o desemprego e a guerra.

Este "europeísmo de esquerda", na expressão do texto fundador do Bloco em 1999, sintetiza bem um projecto que é alternativo ao situacionismo do Bloco Central e ao isolacionismo do PCP. Quem quiser saber o que ele significa só precisa recuar uns dias: ainda Cordeiro preparava a homilia anti-bloquista de natal, vinte e três imigrantes marroquinos deram à costa no Algarve, no fim duma viagem em busca de trabalho e um futuro melhor que por pouco não acabava em tragédia. Foi a primeira vez que o país foi directamente confrontado com o drama dos imigrantes que desafiam o mar para chegar à Europa. Um deputado da esquerda portuguesa fez o que tinha a fazer: António Chora foi ao local onde estavam detidos, inteirou-se do seu estado, transmitiu-lhes solidariedade e denunciou a política duma Europa-Fortaleza que recusa os direitos aos que já aqui vivem e alimenta estas redes de imigração ilegal. Do PCP não se ouviu palavra.

O combate à Europa do capital deve fazer-se à escala europeia, aprendendo e lutando ao lado dos movimentos que combatem o racismo, a homofobia, a flexigurança e o Tratado de Lisboa. Se não perceber isto a tempo, o PCP corre o risco de ficar conhecido na Europa pelo isolamento a que se remeteu e pela infeliz circunstância de não ter uma única mulher em 11 deputados no parlamento. Nem mesmo à quinta-feira.

 
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