Das guerras por petróleo às guerras por água criar PDF versão para impressão
21-Dez-2007
Amy GoodmanÉ difícil imaginar que o pólo norte, o lendário território congelado de gelo e neve, terá desaparecido completamente nuns poucos anos. Também se perderá o imenso arquivo de dados arqueológicos guardados no gelo: milhares de anos da história climática da Terra ficaram registados nas camadas de gelo que se encontram a quilómetros de profundidade.

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído no princípio do mês em Oslo, Noruega. Al Gore partilhou o prémio com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU (IPCC é a sigla em inglês), que representa mais de 2.500 cientistas de 130 países. A cerimónia solene teve lugar ao mesmo tempo que os Estados Unidos bloqueavam qualquer progresso significativo na Conferência Mundial sobre as Alterações Climáticas da ONU em Bali, Indonésia, e no momento em que, no Senado dos EUA, os republicanos deitavam por terra o projecto de lei, aprovado pela Câmara de Representantes, que deveria acelerar a adopção de fontes de energia renovável em detrimento das grandes companhias de petróleo e de carvão.

Gore clarificou o cenário: " Só hoje despejámos mais 70 milhões de toneladas de contaminação causadora do aquecimento global, para a fina camada da atmosfera que rodeia o nosso planeta, como se fosse um esgoto. E amanhã lançaremos uma quantidade ainda maior, com as concentrações acumuladas absorvendo cada vez mais calor do sol."

"Como resultado, a Terra tem febre. E a febre está a aumentar. Os peritos avisaram-nos de que não se trata de uma infecção passageira que vai curar-se por si própria. Pedimos uma segunda opinião. E uma terceira. E uma quarta. E a conclusão a que se chega constantemente, cada vez pronunciada com maior alarme, é que há um problema com algo básico. Quem está mal somos nós, e devemos corrigi-lo".

Gore prosseguiu: " No dia 21 de Setembro passado, quando o hemisfério norte se afastava do sol, os cientistas informaram com um alarme sem precedentes que a camada de gelo do pólo norte está ‘a desaparecer'. Um estudo calculou que poderia desaparecer completamente durante o Verão em menos de 22 anos. Outro novo estudo avisa que isto poderia acontecer em apenas sete anos. Sete anos a partir do dia de hoje".

Como explicarão isto os cépticos das alterações climáticas? (Actualmente, as grandes companhias estão a festejar a ruptura da calota de gelo polar, uma vez que se abre uma rota marítima pelo norte, entre o Atlântico e o Pacífico, gerando assim uma rota mais barata para fazer ainda mais transportes desnecessários). É difícil imaginar que o pólo norte, o lendário território congelado de gelo e neve, terá desaparecido completamente nuns poucos anos. Também se perderá o imenso arquivo de dados arqueológicos guardados no gelo: milhares de anos da história climática da Terra ficaram registados nas camadas de gelo que se encontram a quilómetros de profundidade. Os cientistas estão a começar a compreender como ler e interpretar a história. O grande derretimento do gelo, é certo, terá efeitos catastróficos sobre o ecossistema do norte, que tem espécies como o urso polar que já estão à beira da extinção.

Rajendra Pachauri, cientista indiano, aceitou o galardão em nome do IPPC. Pachauri é um cuidadoso cientista dotado da habilidade política suficiente para presidir ao trabalho do IPCC apesar do permanente antagonismo dos Estados Unidos. Chamou a atenção para o desproporcionado efeito que têm as alterações climáticas sobre o povo pobre do mundo:

"O impacto das alterações climáticas sobre algumas das comunidades mais pobres e vulneráveis do mundo poderia ser extremamente preocupante... em termos de: acesso à água potável, acesso a suficiente alimento, condições estáveis de saúde, recursos do ecossistema e segurança das povoações".

Pachauri prevê guerras por água e migrações em massa. "A migração, habitualmente temporária e com frequência das zonas rurais para as urbanas, é uma resposta normal a calamidades como inundações e fomes".

Gore invocou a memória de Gandhi, defendendo que ele "fez despertar a maior democracia do planeta e forjou uma vontade partilhada com o que chamava ‘Satyagraha' - ou ‘a força da verdade'. Em cada país, a verdade -uma vez conhecida- tem o poder de fazer-nos livres". Satyagraha, como a praticou Gandhi, é a aplicação disciplinada da resistência não violenta, que é exactamente o que Ted Glick está a fazer em Washington.

Glick dirige o Conselho de Emergência Climática. No dia seguinte à cerimónia do Prémio Nobel, quando cumpria o seu 99º dia de jejum ingerindo unicamente líquidos, realizou uma "assentada" (sit-in), com mais 20 pessoas, no escritório do líder da minoria do Senado, Mitch McConnell.

Os republicanos do Senado estão a bloquear neste momento um projecto de lei federal sobre energia que criaria fundos para o desenvolvimento de fontes energéticas renováveis nos Estados Unidos, ao mesmo que retiraria milhares de milhões de dólares de isenções às grandes petrolíferas e empresas do carvão.

Glick disse-me: "Temos que estar dispostos a ir para a cadeia. O próprio Al Gore, há um par de meses, disse que os jovens teriam que ir fazer sit-ins em frente às fábricas a carvão para evitar que sejam construídas. E é verdade. Os jovens deveriam fazê-lo. A gente de meia idade deveria fazê-lo. As pessoas mais velhas deveriam fazê-lo. E Al Gore deveria fazê-lo. Tomemos a sério esta crise".

Enquanto Glick realizava o seu sit-in, começaram a circular informações na imprensa sobre as pressões políticas contra o projecto de lei da energia por parte do consultório jurídico do candidato republicano à presidência Rudolph Giuliani. Segundo as notícias da Bloomberg, o Bracewell & Giuliani LLP foi contratado pelo gigante da energia Southern Co. para derrubar o projecto de lei. Num almoço para recolha de fundos de 1.000 dólares por pessoa realizado em Agosto passado, quando se dirigia a membros da indústria do carvão, Giuliani disse: "Temos de aumentar a nossa dependência do carvão".

Enquanto as arcas de Giuliani engordam com o dinheiro das grandes petrolíferas e empresas de gás e carvão, Glick perdeu mais de 18 quilos de peso, e a temperatura da Terra continua a aumentar.

Amy Goodman

Tradução de Jaime Pinho

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.