Coragem Política criar PDF versão para impressão
02-Set-2006

João Teixeira LopesPortugal permanece o país mais desigual da Europa(1). Entre 1995 e 2005 o índice de pobreza relativa ter-se-á mantido inalterável ou, provavelmente, aumentado um pouco. A desigualdade de rendimentos, entre os pólos extremos da estrutura social não cessou de crescer. Entre 2001 e 2003, depois de uma ligeira atenuação (impacte das políticas sociais da Governação Guterres) a relação entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres era de 7,4 (o que significa, literalmente, que os mais ricos possuem 7,4 vezes mais rendimentos do que os mais pobres). Estamos a falar, por isso, de uma década perdida.

Dez anos irrecuperáveis, com tradução concreta no sofrimento de muitas pessoas. Acrescem a estes indicadores a pior taxa de abandono escolar da União Europeia; o maior índice europeu de pobreza persistente (de longa duração, reprodutiva, de cariz estrutural); uma das maiores percentagens de crianças pobres (15,6). Em simultâneo, e concomitantemente com estes tristes indicadores, Portugal desceu de 26º para 27º lugar na lista ordenada de Desenvolvimento Humano da ONU (e que resulta da combinação de uma vasta panóplia de indicadores). Esta é a realidade. Como explicá-la, eis a primeira tarefa. Como mudá-la, eis a urgência(2).

Entretanto, O Grupo Amorim, desde que entrou na GALP, obteve, em apenas oito meses, um valor próximo dos 680 milhões de euros, em mais-valias e dividendos extraordinários. A maior parte deste valor não foi taxado. Se isto não é um roubo, então o que será roubar? Coragem política, na verdade, não é «enfrentar» os célebres interesses corporativos de que fala o Governo e onde cabem, de um modo geral, os assalariados que, na sua maioria, são pobres, pouco qualificados e auferem salários muito abaixo da média europeia. Se não reinasse a hipocrisia, «coragem política» teria outro significado radicalmente diferente: justiça redistributiva, imposto sobre as mais-valias e as grandes fortunas, combate sem tréguas ao capitalismo de casino que se mede pela euforia das bolsas e pelo crescimento do desemprego, políticas ousadas de crescimento económico ligado à inovação e à qualificação da mão-de-obra. O caminho mais fácil, no entanto, o da «esquerda» preguiçosa que está no poder, é facilitar os caminhos da pilhagem de uns poucos em nome, imagine-se, do interesse geral!

 


(1) - Todos os dados aqui mencionados foram retirados da edição do Jornal Público de 15 de Janeiro de 2006.
(2) - Falaremos principalmente de exclusão social. A pobreza é um dos indicadores da exclusão, certamente um dos mais poderosos, um autêntico revelador de vastas características da situação social de um indivíduo. Embora se possa medir por taxas (a pobreza assenta principalmente na dimensão económica) ou indicadores mais ou menos compósitos, tem menor relevância analítica que o conceito, mais largo, embora mais difícil de medir, de exclusão, onde se cruzam várias dimensões de um estado de desfiliação, isto é, de ausência de integração social e de regressão na condição cidadã.
 
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