Auto-estrada só para israelitas criar PDF versão para impressão
12-Jan-2008
A estrada443Uma estrada de quarto faixas atravessa as colinas perto desta aldeia palestiniana, propiciando aos israelitas uma ligação rápida entre Jerusalém e a área de Telavive. Mas os condutores das aldeias que circundam a estrada não a podem usar, pois está vedada aos veículos palestinianos.

Por Joel Greenberg, em BEIT SIRA, Cisjordânia, para o Chicago Tribune


As estradas que ligam as aldeias à auto-estrada foram bloqueadas pelo exército israelita com barreiras de betão ou cancelas, forçando os residentes a seguir por uma estrada longa e tortuosa para se dirigirem aos hospitais, escolas, lojas e locais de trabalho na cidade palestiniana de Ramallah, a cerca de 15 minutos de distância pela via rápida.

Estes atrasos já foram fatais em algumas emergências médicas, dizem os habitantes.

O bloqueio do tráfego palestiniano na via, conhecida como Estrada 443, foi gradualmente imposto após um levantamento palestiniano em 2000, em resposta a ataques a condutores israelitas.

Em 2002 a via, a cerca de 15 quilómetros da que atravessa a Cisjordânia, foi efectivamente encerrada a veículos palestinianos.

A Estrada 443 é talvez o exemplo mais flagrante dos regimes de trânsito separados que Israel está a instituir na Cisjordânia, onde o trânsito palestiniano está barrado nas principais artérias utilizadas pelos israelitas e colonatos circundantes, ao passo que os condutores palestinianos são empurrados para estradas secundárias inferiores e tortuosas.

O presidente Bush está no Médio Oriente esta semana, para tentar dar um empurrãozinho às negociações de paz israelo-palestinianas, mas a teia de restrições à circulação na Cisjordânia, a violência persistente e uma multidão de outros obstáculos colocam impedimentos inflexíveis a um acordo.

Exército: o objectivo era acabar com os ataques

O exército israelita diz que a separação da circulação na Cisjordânia, posta em prática através de mais de 500 obstáculos e pontos de controlo nas estradas, visa minimizar os riscos para os israelitas que vivem ou circulam no território, bem como evitar ataques na área administrativa israelita.

Mas as restrições cavaram um fosse profundo na Cisjordânia, criando enclaves separados, causando grandes danos ao comércio e liberdade de circulação palestinianos. Há cerca de 2,5 milhões de palestinianos na Cisjordânia e cerca de 260.000 colonos judeus.

Os presidentes de câmara de seis aldeias palestinianas ao longo da Estrada 443, representados pela Associação para os Direitos Civis em Israel, foram até ao Supremo Tribunal Israelita, pelo direito a utilizar a estrada. Contestam e põem em causa a política de separação do exército na Cisjordânia, designando-a de punição colectiva e discriminação ilegal com base na nacionalidade, análoga ao apartheid, tal como definido no direito internacional.

O exército alega que esta diferenciação entre condutores israelitas e palestinianos é legal e que estas medidas têm melhorado a segurança na Estrada 443.

Cerca de 40.000 veículos israelitas circulam diariamente nesta via, a qual está ladeada por vedações, muros e vigias do exército, e tornou-se na estrada de eleição de muitos israelitas que pretendem fugir aos congestionamentos de trânsitos na principal via rápida entre Telavive e Jerusalém.

Numa declaração para o Supremo Tribunal, o Major General Gadi Shamni, comandante de topo do exército na Cisjordânia, disse que a proibição de palestinianos na Estrada 443 é "a principal razão para a diminuição de incidentes terroristas na estrada". 

Mas para Ali Abu Safiyeh, o presidente da câmara de Beit Sira, uma povoação de cerca de 3.000 habitantes, a proibição de trânsito palestiniano na Estrada 443 junta o insulto à injúria.

Na década de 80 foi retirada área a Beit Sira e a outras povoações, para a construção da estrada, a qual as autoridades israelitas disseram visar servir todos os residentes naquela área, palestinianos e israelitas.

"Esta estrada foi construída no nosso território. É a nossa estrada, e agora estamos barrados", disse Abu Safiyeh, ao passo que conduzia o seu SUV por uma estreita faixa de asfalto de uma só via, ao longo de uma valeta, atravessando por debaixo da via rápida. Isso e um túnel de duas faixas muito rudimentar são as únicas ligações rodoviárias entre Beit Sira e as aldeias ao longo da estrada e Ramallah.

A estrada para Ramallah é acidentada e ventosa, com pouco mais de uma faixa de largura, que serpenteia entre várias povoações e postos de controlo do exército antes de chegar à cidade. Uma deslocação pode demorar qualquer coisa entre uma hora ou duas, ou mais, dependendo das condições da estrada e as demoras nos postos de controlo, diz Abu Safiyeh, acrescentando que através da via rápida poderia chegar a Ramallah em 13 minutos.

Muitas vezes a Estrada já acarretou consequências fatais, de acordo com um relatório entregue ao tribunal pelos representantes dos presidentes de câmara das povoações.

Em Junho de 2006, Fahmi Ankawi, de 51 anos, residente em Beit Sira, que sofria de uma perturbação cardíaca, entrou em colapso e foi enviada de urgência para Ramallah, tendo chegado ao hospital após viagem que durou uma hora e vinte minutos. Morreu minutos depois, e os médicos disseram que provavelmente teria sobrevivido se tivesse chegado mais cedo, de acordo com o relatório.

Em Agosto último, um rapaz de 9 anos, de uma povoação, Ahmad Ankawi, foi atropelado por um carro, enquanto caminhava pela berma da estrada estreita. Foi levado para o hospital em Ramallah, uma viagem que levou hora e meia. Morreu no caminho e, também neste caso, os médicos disseram que poderia ter sido salvo através de uma evacuação mais rápida, de acordo com o relatório.

Mulheres em trabalho de parto têm dado à luz na estrada para Ramallah, e num caso mencionado no relatório, um recém-nascido morreu. Os incêndios em Beit Sira são frequentemente devastadores porque os bombeiros de Ramallah chegam geralmente demasiado tarde para evitar estragos sérios, refere Abu Safiyeh.

A frustração aumenta nas povoações. Na sexta-feira, um protesto perto da estrada transformou-se em confrontos e apedrejamentos com os soldados israelitas, que usaram gás lacrimogéneo, granadas atordoantes e balas de borracha para dispersar os manifestantes, ferindo várias pessoas, referem os participantes.

O exército respondeu ao recurso judicial do presidente da câmara, oferecendo-se para conceder autorizações de circulação a 80 veículos, a maior parte deles táxis ou carrinhas de transporte público, para circularem na Estrada 443 durante o dia, com acesso através de um único posto de controlo. Os presidentes de câmara rejeitaram a oferta.

'Esta é a nossa estrada'

"Esta é a nossa estrada, e deve estar aberta para todos os veículos, durante o dia e durante a noite", diz Abu Safiyeh. "De forma alguma iremos concordar com isto. Que o tribunal decida."

O exército disse, nas suas alegações perante o tribunal, que as autoridades israelitas estão a construir uma estrada alternativa, ligando as povoações a Ramallah. A estrada alternativa é uma das várias que estão a ser construídas pelos israelitas para ligar as povoações palestinianas isoladas pela barreira de separação que Israel está a construir na Cisjordânia.

Mas a Estrada planeada é mais pequena que a via rápida, e os trabalhos foram recentemente suspensos por razões orçamentais.

Em Tira, uma povoação perto da via rápida, a população esperou, numa tarde recente, por detrás de uma barreira de metal, por viajantes que regressavam de Ramallah. A povoação, que não aderiu ao processo judicial, é a única onde vários residentes e taxistas receberam vistos para usar a Estrada 443. Duas vezes por dia, os soldados abrem o portão por duas horas aos veículos com vistos.

Ahmad Muhammad, de 70 anos, esperou no portão pelo neto que vinha da escola, enquanto veículos israelitas aceleravam na via rápida ali ao pé. Nesse dia, o portão para a povoação manteve-se fechado - castigo, dizem os residentes, pela vandalização do portão, dias antes, por jovens locais.

"Somos como um rebanho de ovelhas", diz Muhammad. "Abre, fecha."

8 de Janeiro de 2008

Tradução de Carla Luís

 
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