III Acampamento de Jovens criar PDF versão para impressão
06-Set-2006

UM ESPAÇO EM LIBERTAÇÃO PARA REFORÇARMOS AS LUTAS

Entre 9 e 13 de Agosto decorreu o III Acampamento Nacional de jovens do Bloco. Durante cinco dias Melgaço foi espaço de vários debates e de convívio alternativo.

Texto de José Soeiro. Fotos de Sérgio Vitorino

Num lugar de uma grande beleza natural, à sombra das árvores, discutiu-se um pouco de tudo: das dinâmicas de recomposição da esquerda a nível europeu às experiências na América Latina, das estratégias de luta por um ensino público ao combate à precariedade, da reinvenção do género ao papel do rap nos subúrbios lisboetas, os vários debates contaram com activistas que trouxeram os seus testemunhos. Jovens do Bloco, mas também pessoas com militância em colectivos e associações diversas, na área estudantil, na área LGBT, no ecologismo (em que contámos com a presença de companheiros dos Ecologistas en Acción do Estado Espanhol), em organizações feministas, gente que tem feito voluntariado internacionalista, lutadores/as de todas as frentes. O acampamento teve, de resto um espaço de bancas em que marcaram presença, para além das correntes do Bloco e da informação sobre a Marcha pelo Emprego, associações de Comércio Justo, a UMAR, a AJP e as Panteras Rosa. Os activistas das Panteras tiveram ainda um papel crucial na dinamização do Espaço Sexualidades, durante o tempo livre, em que diversos workshops e debates tiveram lugar, desde brinquedos sexuais à transexualidade.

Em cada manhã, os diferentes workshops culturais foram acontecendo: percussão, artes murais, teatro do oprimido, andas e animação de rua, construção de vacas magras, massagens, raggajam. Estes foram espaços de descontracção, de desmecanização do corpo mas também das ideias. No último dia, à noite, foram apresentados os resultados de algumas das oficinas, com um espectáculo de djambés e harmónica, com uma exposição de stencil e uma sessão de teatro-fórum sobre violência doméstica.

O parque de campismo e a área de Lamas de Mouro onde decorreram as actividades são muito bonitos, mas a falta de água, a dispersão pelo espaço, o pó na tenda da disco não permitiram desfrutar ao máximo do convívio com toda a gente, apesar da qualidade dos dj's. Mas a distância entre as tendas e as actividades acabou por ser um bom pretexto para tod@s treinarem para a Marcha. E a companhia das vacas foi uma inesperada surpresa positiva. No entanto, um outro espaço deverá provavelmente ter de ser encontrado para próximas iniciativas.

Com todas as dificuldades que existiram, o acampamento ficará contudo positivamente na memória dos que por lá passaram, muitos deles pela primeira vez numa iniciativa nacional do Bloco. A discussão política, as conversas, a festa, o conhecimento de pessoas que em diferentes pontos do país trazem o mesmo empenho na luta contra todas as formas de exploração e discriminação fará parte das recordações de muit@s. O campo foi, além disso, o momento em que uma nova geração de jovens activistas do Bloco assumiram responsabilidades e deram toda a sua energia para a organização dos pequenos nadas que o tornam possível, dos turnos à logística, das refeições à limpeza.

Para o acampamento foram levados muitos dos problemas do mundo, e não foi de um momento para o outro que todas as opressões deixaram de existir. Não se trata de um espaço completamente libertado de tudo o que nos faz infeliz, mas de um espaço em libertação. Por isso mesmo, se foi o lugar onde coisas menos boas aconteceram, foi também o lugar onde essas ideias e comportamentos foram combatidos e discutidos. Trata-se agora não de descansar na memória daqueles dias em que estivemos isolados, mas de transportar tudo o que aprendemos para os sítios onde vivemos. Nas escolas, nas cidades, nas empresas, em todos os lugares, o acampamento servirá para reforçarmos e prolongarmos as nossas lutas. Levantar o problema do desemprego e da precariedade e lançar-lhes alternativas durante a Marcha e ganhar, em nome da dignidade das mulheres, um provável referendo sobre o aborto, serão com certeza duas dessas batalhas centrais que estão aí á porta.

 
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